Café e distrações

Você pode até tentar me provocar ciúmes, dizer que ela é linda, enumerando características que ela possui e eu não. Eu te falarei dos meus livros, minhas lutas pessoais e um pouco de Almodóvar, que você só conhece pela paleta de cores dos filmes.

Tentando ir além, você a levará para a festa em que estaremos e eu terei de engolir em seco palavrões quilométricos. Na minha transparência facial, você conquistará um ponto de vantagem. Nem ligo. O que são caras e bocas, perto do que a gente tem um com o outro?

Então, saia dessa. Hoje, seu olhar em mim disse tudo. Me contou sobre a sua saudade em conversar comigo, embora tenha acontecido pouco nos últimos dias. Seu olhar me disse, tão amendoado e amedrontado, que a tua lembrança traz o meu sorriso gravado e tantas besteiras que eu digo. Deixou muito claro que você anda em círculos, volitando na minha órbita, enquanto eu finjo que não vejo. Enquanto você sente e não sabe o que fazer com isso.

Eu só gostaria de te dar um aviso: o tempo vai passar. Teu café vai esfriar na distração. O meu vai esquentar as tardes chuvosas, regadas com leitura de qualidade duvidosa. Se o nome dela for diferente do meu, você terá problemas. Se eu não esquecer o seu, será sorte. Você me verá todos os dias e chutará pedrinhas ao longo do caminho de volta. Eu andarei sobre elas, pois foi assim que a vida me ensinou a lidar com os escombros das minhas demolições e construções internas.

Você me olhará demoradamente. Eu seguirei sua ordem ocular, feito sombra. Tentaremos nos encaixar de qualquer jeito, na força, na marra, na persistência de achar que vale a pena.

Você pode até cantar outras canções, assobiando os trechos esquecidos. Mas saiba de uma coisa: eu sei a música de cor.

 

Aryane Silva

 

IMAGEM: STLUKA ( http://stluka.deviantart.com/)

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