Que me lê

Sou a favor de tentativas e insistências. Já desisti de coisas demais. E acredito que você, que me lê agora, também já tenha deixado muitas coisas para trás. Estamos muito longe, eu sei. E somos muito diferentes. Aqui chove e é domingo. Eu quis escrever. Desculpe, mas eu precisava escrever.

Em alguns momentos, enquanto escrevo, me acho muito egoísta. Falo de mim, dos meus sentimentos e sei que ninguém liga para isso. Mas não sei como falar de você, sem falar de mim. Tudo nasce aqui. Serei gentil a ponto de pular os clichês repetitivos de insônia e saudade. Das gavetas vazias e dos ombros cansados. Porque, no final de tudo, ninguém liga.

Talvez eu seja aquele flash de pensamento que muita gente tem quando abre a geladeira e não sabe porquê. Ou uma falta de opção de alguém para lembrar. Aquela que sempre está pronta para atender e escutar, só isso. Mas a minha prontidão vai além. Passa das páginas que leio e dos animais fofinhos que eu amo. Passa das músicas e desejos ainda adolescentes. Eu estou pronta, acredite.

Venho refletindo muito, de uns tempos para cá. Estou – ou melhor, estamos – em um caminho que não conhecemos, com uma sede enorme e uma vastidão por dentro. Caraminholas na cabeça e pouco dinheiro para gastar. Fazemos planos que não acreditamos, porque o sono em dia é mais importante que a euforia. Protelamos encontros, porque amar custa caro. Adiamos orgasmos pela falta de ousadia.

Você, que me lê, sabe que a vida passa. E que ela está passando mais rápido do que nossos olhos podem acompanhar. Já temos trinta. Já somos adultos. Piscaremos e já teremos quarenta, com corpos que acumularão idade e não tempo vivido. Nossas cabeças fabricam sonhos demais, que se desmancham à primeira dificuldade. Não temos a fibra que nossos pais tinham, nem a garra que nossos filhos um dia terão (assim espero). O teu signo é o mais chorão do zodíaco e o meu… deixa pra lá, é tudo uma grandessíssima bobagem.

Se você ainda está me lendo, pare e pense: será que alguma coisa que escrevi faz sentido? Será que precisamos de palavras para interpretar a vida? Será que você ainda não entendeu nada?

Acho que não saber, às vezes, é uma puta sorte.

 

Aryane Silva

 

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