Diálogos (quase) possíveis – história 13

Era dezesseis de dezembro, de um ano muito quente. Aliás, naquela cidade, fazia calor quase todos os dias. Mas o último mês prometia temperaturas altíssimas, que ela odiava. Você, que me lê, deve estar se perguntando: quem é ela? Não tenho a intenção de responder. Nem hoje, nem nunca. Concedo o benefício da dúvida. 

A moça tinha um compromisso naquela data. Algo adiado por muito tempo e maior que ela. Fez e refez os planos milhões de vezes, ficou sem dormir, comprou roupa nova e ensaiou discursos. Tudo em vão, pura perda de tempo. Mais uma vez, ela protelaria esse compromisso. E, desta vez, sem aquele drama barato do “e se?”. Ela levou meses para tomar a decisão. Estava cansada de insistir no que não teria futuro.

Contrariando a etiqueta dos relacionamentos saudáveis e, portanto, polidos, ela não avisou que havia desistido. Era sábado, seu primeiro dia de férias. Acordou ao meio-dia, com o barulho de notificação de sms.

” Bom dia! Nosso dia será lindo! Já pegou o ônibus?”

Tomou café em uma padaria. As pessoas já estavam almoçando, mas ela estava de férias e sabia que o tempo, segundo Einstein, era relativo. Não havia pressa de mastigar. Levou mais que o necessário para comer um pão na chapa.

Voltou pra casa, voltou pra cama. O quarto, gelado e escuro, passava uma sensação de aconchego. Duas da tarde. Mais uma mensagem.

“Já preparei todas as minhas horas para te receber. Estou ansioso.”

Ela riu. Quem diria que o jogo viraria daquele jeito? Jogo não, porque ela não gostava. E esse era o problema. Ela queria a intensidade à luz do dia, palavras, hálito, mãos e arrepios. Mas só se isso tudo fosse verdadeiro. Ela sabia que não era. Sempre soube, mas forçou a barra. Quando caiu em si, prometeu que não sofreria, no máximo pensaria no assunto, como se tivesse acontecido há anos. Nada além.

Rolou para o lado e dormiu. Muito. A tarde toda. Até o início da noite. Acordou com o barulho de fogos de artifício, que o vizinho soltou para comemorar o aniversário de sua filha, para o qual ela foi convidada, mas recusou educadamente, dizendo que precisava viajar e não estaria por lá. Que ironia.

Acendeu a luz. Precisava comer alguma coisa. Pizza ou batata frita?  A mala estava no mesmo canto do quarto, desde o dia que arrumou, no mês anterior. Pegou o celular para ver a hora. Cinco mensagens de texto.

“Quando passar da ponte, me avisa.”

“Você prefere frango ou carne?”

“Está tudo bem? Acho que não está recebendo minhas mensagens.”

“Já chegou? Estou te esperando.”

“Você não vem, não é?”

Ela leu todas, suspirou e respondeu para si mesma: não, eu não vou.

Aryane Silva

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