É só com afeto mesmo?

Você deve ter lido este título e pensado: “como ela se atreveu? ”. Pois é, eu me atrevi. Aliás, sou atrevida, principalmente com as palavras. Vim aqui porque ando com a cabeça confusa, cansada de falar, observar, notar e não ter as respostas que preciso.

Para resumir e finalizar  o folhetim ultrarromântico, pergunto: é só afeto mesmo?

É com afeto que você liga para mim às quatro da manhã, de um número desconhecido, só para ouvir meu alô puto e sonolento, desligando depois de alguns segundos, mesmo sabendo que  precisa acordar às seis para trabalhar em um escritório sem janelas, por oito horas?

É com afeto que você passou a comer uma maçã por dia, porque eu disse, em alguma de nossas conversas, que a fruta faz bem para a saúde? E que conta para os seus amigos, rindo e sorrindo, que tem uma amiga que diz não gostar de maçã porque dão borboletas no estômago? Só amiga mesmo?

É com afeto que você passou a gostar das mesmas músicas de MPB que eu gosto, mesmo que sua preferência seja rock internacional? Não te causa estranheza cantar algo que não te define? Está cansado de saber (porque eu contei) que, várias vezes, paro o que estiver fazendo, fecho os olhos e absorvo os versos de Caetano. Absorvo mesmo. Sinto cada palavra e nota musical lá na alma. É só por afeto que você acha isso incrível e delicioso? Mesmo?

É com afeto que você calcula, toda semana, o quanto ficaria uma estadia de três dias na minha cidade, com direito à vista para o mar (para o mar, olha!), só para vir me ver, já que não me arrisco em um avião? Você já chegou a concluir sua vontade, ou desiste, assim como eu, por pensar que será tempo perdido? (meu bem, soube isso de outras bocas, fontes bem seguras).

Não falarei das cartas, porque sei que não as escreve mais. Só para mim. Para os outros, sei que sim. Para mim disse, certa vez, que escrever cartas era cansativo, antiquado e dava preguiça de ir ao correio. Então, é com afeto que você as escreve, não envia, as guarda e relê quando a saudade aperta? Saudade dos seus próprios sentimentos? Afeto não é plural, como amor. Que isso fique bem claro.

É com afeto que você tatuou um passarinho minimalista no pulso, mesmo sendo ridicularizado pelos amigos? E por que um pássaro? Você gosta deles? Porque eu adoro. Você sabia que eu adoro? Você tem medo de tatuagens, não é? Repito: por que um pássaro? Por que não um tigre, um leão, uma carpa? Por que um animal que eu gosto? Por que sentir uma dor desnecessária para tatuar um animal que eu gosto? Ah, olha eu me achando. Ridícula. É só afeto, garota!

É com afeto que você come pipoca salgada com cobertura doce e se apaixonou por tudo que tem queijo? E come, não por gostar da comida em si, mas pela lembrança que isso traz? Como se você já fizesse parte do corpo de alguém, apenas pelo paladar? Sinto te desapontar, mas “provar” alguém está além de sabores que vão à mesa. E fazer parte do corpo de alguém é a prova que confirma minha tese. E, para completar, um corpo é só um corpo. A pessoa que o veste é que interessa. O meu afeto te afeta a esse ponto?

É com afeto que você revelou uma foto minha, em uma resolução muito ruim, mas aceitou, pagou por isso e colocou-a dentro do seu livro preferido? A sua preferência literária tem a ver com a minha? Todos os clássicos nacionais que li, estão na tua estante? Você marca os trechos que te definem e fica bobo, ao imaginar como alguém que morreu no século passado fala dos seus sentimentos, como se já te conhecesse? Eu também passo por isso. Na maioria das vezes, estão relacionados a pessoas silenciosas, cheias de conflitos e que são cativantes, mesmo que os outros personagens não se deem conta em um primeiro momento. A famosa peça que a vida nos prega. Por falar nisso, eu estou nessas linhas, sozinha? Porque, se esses grifos forem para todos, não quero não. Prefiro morar em outras páginas, dedos e olhos.

Tem certeza que é só afeto? Não é amor?

Aryane Silva

PS: Porque, se for amor, eu estou pronta.

 

 

 

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