Uma história sobre empatia (ou a falta dela)

Há três meses, fui “achada” por uma colega dos tempos de colégio, em uma rede social. Tomei um susto quando ela me mandou uma mensagem, me chamando pelo apelido de infância. E, ao mesmo tempo, achei graça por ela ter lembrado disso, depois de quase vinte anos. Conversamos trivialidades, nada muito profundo, porque já passava das onze da noite e eu estava caindo de sono.

No dia seguinte, ela me mandou uma nova mensagem, querendo marcar um encontro. Achei estranho. Nunca tive intimidade com ela, nem éramos tão amigas assim. Mas ela queria me ver de qualquer jeito. Sugeriu vários lugares, alguns próximos, outros nem tanto. Respondi que estava almoçando, que pensaria em algum lugar legal e depois combinaríamos.

No segundo dia, após nosso reencontro virtual, ela me mandou mais uma mensagem, me cobrando o tal chopp, que eu sequer gosto. Percebi que ela não era do tipo de pessoa que insiste apenas três vezes. Eu estava lendo um livro de letrinhas minúsculas, quando recebi a mensagem. Respondi com um “ok, fechado”. E já comecei a sofrer, só de pensar em ter que sair de casa.

Três dias depois lá estava eu, sentada na praça de alimentação do shopping, meio que contra a minha vontade, esperando a ex-colega/ quase-futura-amiga. Quando ela me viu, sorriu e abriu os braços. Tentei adivinhar qual sentimento ela nutria por mim, depois de tantos anos, porque eu não me lembrava de nada parecido que tenhamos compartilhado.

Ela me abraçou e sentou à minha frente. Colocou a bolsa na cadeira ao lado e começou a falar. Falar. Falarrrr. Falaaaaaaar. FALAR! Pelo pouco que absorvi, ela já  terminou a pós, é casada, tem um filho pequeno, que nasceu com três quilos e oitocentos gramas, passou a lua-de-mel na Espanha e foi promovida. Eu não lembro no que ela trabalha, nem o nome do filho. Eu estava ocupada, tentando disfarçar o meu desconforto em estar longe de casa.

Em seguida, ela perguntou sobre mim. E, antes que eu respondesse, acessou o Facebook, tirou uma selfie comigo (que eu aceitei muito a contragosto), se gabou da câmera frontal do seu celular, postou, me marcou e analisou quantas pessoas curtiram. Quando eu tentei falar alguma coisa, ela se adiantou e disse que eu precisava ser mãe, que era sublime, maravilhoso. Eu não duvido que seja, mas explicar me daria trabalho. Então só assenti. Me perguntou do segundo livro, quando seria publicado. Achei engraçado, porque ela sequer leu o primeiro. Eu disse que estava terminando, fazendo os últimos ajustes e ela riu, completando que achava leitura um saco. Que preferia viajar. Ou comprar uma bolsa. Ou cortar o cabelo. Ou planejar a festa de três anos do filho. Uma lista de motivos que eu ignoro, obviamente.

Ela comeu, falando entre uma garfada e outra. Eu, quieta estava, quieta continuei. Não sentia fome, porque o aperto e o desconforto eram absurdamente maiores. Brinquei com a comida, enquanto tentava pensar na tal luz violeta que dizem que acalma. Não funcionou.

Terminou de comer e fez comentários depreciativos de outras pessoas que estavam no mesmo lugar, como seu eu gostasse daquilo. Como se eu, no auge dos meus trinta e dois anos, achasse alguma graça em rir de alguém. Olhei para o chão e esperei. Nos despedimos e ela foi embora.

Na volta para casa, dentro do Uber, pensei no tempo desperdiçado com alguém que sequer me olhou  nos olhos. Alguém que não notou que eu esfregava aos mãos de nervoso, que eu suava, que eu não estava feliz.

– À direita ou à esquerda? – perguntou o motorista.

– Primeiro, à direita, depois à esquerda, na penúltima casa da rua.

Esperei ele calcular o valor.

– Sua corrida saiu de graça. A senhora está com sorte! – disse ele, sorrindo.

Agradeci e saí do carro.

É, muita sorte, pensei.

 

Aryane Silva

 

IMAGEM: Google

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