Diálogos (quase) possíveis – história 14

Outubro de 2013:

Ela estava com o coração pesado, triste e, ao mesmo tempo, feliz, por trazer dentro de si um sentimento tão bonito. Mas sentia sozinha. Ou achava que sim. Como sempre fazia, pegou papel e caneta e decidiu desabafar. Escreveu, mais ou menos, trinta linhas. De rebeldia – e após uma crise de choro – publicou o tal texto desaforado.

No dia seguinte, recebeu um e-mail. Seu coração bateu de expectativa, mas o tal sorriso de ao ler o nome do remetente, desapareceu. A crônica acertou o alvo (ainda que esta não fosse a intenção da autora). A mensagem recebida acertou seu coração, e não foi de um jeito bom.

“Li seu texto. Estou confuso. O que está acontecendo com você? Acho que entendeu tudo errado.”

Dezesseis palavras. Ela leu, releu, julgou sua interpretação um tanto falha. Trocou as pontuações por outras, na tentativa de encontrar um erro semântico, que alterasse o teor daquele e-mail. Não tinha como. Era aquilo mesmo. Como dezesseis palavras têm o poder de acabar com o dia de uma pessoa? Não importava mais. O que sentia havia sido roubado, quebrado em mil pedacinhos. Respondeu com um pedido de desculpas, como se amar alguém fosse um grande erro.  Preferiu se afastar, se achou boba, chorou mais um pouco por ter entregue seu melhor para alguém que não deu importância.

 

Novembro de 2017:

Ela estava saindo da faculdade, última prova do período. Seu celular tocou. Ela atendeu e não acreditou que era ele, ligando àquela hora.

– Oi, sumido! – tentou usar um tom descontraído, embora não estivesse.

– Oi. Onde você está? – ele estava sério.

– Estou saindo da faculdade. Tudo bem com você?

– Você pode falar ou está ocupada?

– Pode falar. – ela não estava mais segura como antes.

Houve uma pausa. Uma longa pausa. Ela só não desligou porque ouviu um clique, repetidas vezes, como se ele estivesse apertando um botão.

– Serei direto. Não nos falamos há alguns meses…

– Sim, é verdade.

– Não me interrompa, por favor. Você não sabe o quanto está sendo difícil fazer essa ligação.

– Ok. – seu coração, aflito, voltou a bater, como nos anos anteriores.

– Como eu disse, não nos falamos há meses. Fiquei pensando se eu havia feito algo errado, ou se você acha que errou comigo, o que seria besteira. Na verdade, não agi certo com você. Não me dei a oportunidade de conhecer seu sentimento. E acabei pagando um preço alto por isso. Eu não entendi a grandiosidade do seu amor, até vê-la amando outra pessoa, que está feliz ao seu lado. Você entende?

– Sim, entendo.

– Que bom.

– Sim, é ótimo.

Mais uma pausa. Os dois emocionados, cada um em um canto da cidade.

– Acho que eu amo errado, Ane.

– Ai, não fala uma coisa dessas! Talvez não tenha sido o momento certo. Isso acontece muito.

– Na verdade, eu achei que você não seria capaz de se arriscar.

– E você seria? – ela perguntou, direta.

Ele ficou em silêncio, mais uma vez. Ela não estava acostumada a pessoas trancadas.

– Posso te fazer uma pergunta? – ele recomeçou.

– Sim.

– Você está feliz?

– Preciso desligar. Foi ótimo falar com você.

Ela desligou, com a impressão de que ele não se arriscaria.

Ele teve a certeza que ela estava feliz sem ele.

Mais uma vez a esquina da vida presenciou o encontro de dois amores, que se cruzaram e foram um para cada lado.

 

Aryane Silva

Vídeo: Youtube

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