Mixórdia

São quase cinco da manhã. Chove bastante aqui na minha cidade. E eu, apesar de saber tantas coisas, ainda não sei o que eu fiz para que você ficasse tão indiferente a mim. Ok, concordo que eu não sou uma pessoa tão acessível. Prezo pelo falar pouco ou quase não falar. Sou do pensar e quase não agir. Mas tudo isto tem uma razão de ser e so com você eu sou diferente. Contigo, eu quero conversar até o amanhecer. Quero rir de piadas bobas e fazer planos. Lembra da viagem de ônibus a outro país, que comentamos e que, depois de uma risada descrente minha, você disse que era sério? Lembra do convite para ver o céu estrelado e amanhecer contigo? Pois é, nada disso se concretizou. E eu me pergunto o porquê de não termos forças para dizer, quando haviam tantos sinais. Acima de tudo, nos propomos um jogo perigoso, elástico, do quase-beija, quase-diz-que-ama, quase-liga. Uma competição que não pretendíamos ganhar por covardia, por um desejo que ardia e que só viveu de fantasia.

Não somos bons em amar. Você, sentimental demais, dramático aos tubos. Eu, prática, direta, querendo viver o que para mim era óbvio. Mas sugestões de músicas e convites para passar um tempo juntos, eu pensava no quanto tudo isso poderia dar certo. Eu já tinha um roteiro inteiro na minha cabeça, de como ajeitaria minha vida para caber na tua. Não movi uma palha. Você também não. Cansamos, cada um a seu modo. A sua vida te pesa e a minha não faz nada, além de seguir um cartilha rotineira.

Várias vezes eu me pego pensando no quanto eu queria que as coisas fossem diferentes. Que ainda existisse um elo, uma ponte que nos ligasse e aquele incômodo antigo de querer te ver e achar que estou perdendo tempo demais. O pior de tudo isso é a certeza que a vida jogou no meu colo e que só concordei agora: não era amor. Era qualquer coisa, menos amor. Tanto da minha parte, quanto da tua. A gente brincou com sentimento, só para passar o tempo e acabar com o tédio. No fim das contas, não é o coração que está ferido. O que dói é o “se” não vivido.

 

Aryane Silva

IMAGEM: Tom French

 

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