Um quase trevo, um quase amor

Certo dia eu estava saindo de casa, quando reparei que no meu jardim havia uma planta que parecia um trevo, mas só tinha três folhas. Eu pensei: “nossa, é quase um trevo. Se tivesse só mais uma folhinha… Que pena”. Pedi para uma aluna abaixar e arrancar. Trouxe para dentro de casa e cometi um erro que, para mim, é gravíssimo.

Sentei no sofá e percebi que, se eu arrancasse uma parte dequele trevo de três folhas, ela seria parecida com um coração verde. Foi o que fiz. Escolhi a parte mais redondinha e coloquei na palma da mão, para tirar foto. Tirei várias, até que uma me servisse. Queria a imagem perfeita para postar nas redes sociais, como se fosse obra do acaso achar uma folhinha assim. Lembrei que tinha um e-mail para enviar e acabei esquecendo de postar a foto (o que faço agora).

Relembrando: vi uma planta que era quase um trevo, lamentei por isso, arranquei a pobrezinha e, não satisfeita, quis que ela passasse pelo que não era, mas esqueci.

É assim com plantas no quintal. É assim com pessoas.

Tem vezes que esbarramos com pessoas pelo mundo e pensamos “se ela fosse mais falante, seria melhor”. Ou “se ele gostasse mais de animais, seria meu amigo”. Quantas vezes conjugamos os outros no pretérito imperfeito do subjuntivo, não é mesmo? Julgamos e classificamos como se isto fosse natural, queremos a todo custo forçar um estilo que não cabe, empurrar goela abaixo do outro um sabor que não lhe apetece. Lidamos com as pessoas como se elas fossem modeláveis. Eu sinto muito te informar, mas não dá para separar as pessoas em caixinhas, etiquetadas com o útil, que fica mais à frente do armário, e impróprias, que guardamos lá no fundo. Não dá.

Mas, se você leu até aqui e acha tudo uma grande bobagem, te desejo sorte. Muita sorte. Inverter a ordem de utilidade no jogo pessoas versus coisas é fatal. No final, você se engana e acaba guardando tudo no mesmo lugar.

Aryane Silva

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