(Re)construção

Viver é uma queda inevitável, como andar em uma rua esburacada de salto agulha.

É listar uma série de tarefas para realizar no dia seguinte e procrastinar.

É apanhar e se curar sozinha, sem remédio ou sopro ou abraço.

Estar de pé é mais que uma necessidade. É uma afronta, um desafio no meio de gente caída. E você não pode estar lá. Não pode e não deve.

Viver é sorrir, porque explicar dá trabalho. E fazer o outro entender, mais ainda.

Em um dia, estamos bem. No outro, mais ou menos. Até que alguém bate à porta de sua casa e diz que você não pode ficar assim, mesmo que você queira um dia meia-boca para refletir, comer e assistir Netflix.

Viver é estar rodeado de gente que não se suporta nas entrelinhas, mas que a pedido de uma polida convivência, declaram um falso amor em quatro linhas virtuais. Se você não souber jogar, está fora da brincadeira.

Viver é levar um soco de direita bem no centro da alma e, mesmo assim, ter calma em não revidar. E, mesmo assim, ser chamado de narcisista e egoísta. E, depois disso, chorar no travesseiro pela injustiça. E, mais adiante, perceber que a culpa foi em parte sua, em se colocar no centro da manipulação alheia.

Viver é se respeitar e ser forçado a entender quando o mundo não te respeita. Alguns usam suas próprias armas (bélicas, morais ou emocionais), mas você, que ainda está descobrindo o teu caminho, não tem armas adequadas, então, se fode.

Aliás, viver é se foder o tempo inteiro. Às vezes por amor, outras por tesão, ou por ser trouxa e dar mais do que recebe. A gente ainda é muito pequeno. Fodemos os outros e não com eles (que desperdício).

Viver é reprimir um grito quando não é conveniente, porque vencer pelo berro e pela insistência qualquer um consegue. Pelo equilíbrio de bons argumentos é que são elas.

Viver é não aceitar qualquer trocado de sentimento porque você não se basta. É ver a superficialidade do mundo e lamentar. É ver o sofrimento do outro e chorar junto. É ver o entardecer bonito e sorrir, mesmo que muita gente ache idiotice amar algo que acontece todo dia, como se fosse impossível amar o mesmo. Aqui, o reamor é possível.

Viver é respirar profundamente por sete segundos, prender o ar por mais sete, expirar por outros sete e esperar sete segundos para começar tudo de novo. Há poluentes demais no mundo.No preconceito. No desamor. No julgamento. Por isso, preferimos a autopurificação ao invés de máscaras. Há quem chame de babaquice. Eu conheço como meditação.

Viver é morar fora de casa e só perceber isso quando sofremos de fome, de sede ou de frio. É quando o externo não oferece nada e percebemos que tudo que precisamos está dentro.

Mas como voltar para dentro? É isso que estou tentando fazer.

Se você não entende, apenas respeite.

Aryane Silva

IMAGEM: IsisPina

 

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