Agora

Enquanto alguns já estão dormindo faz tempo, eu estou aqui, insistindo, persistindo, na esperança que você me leia, porque eu quero o teu sentir além do óbvio das palavras. Aliás, eu quero muitas coisas, que nunca foram ditas assim, tão abertamente. Saiba: eu detesto as entrelinhas e duplas interpretações.

Só te peço uma coisa, se me lê agora (ou se me ler amanhã, ou depois, ou depois…): pare o que estiver fazendo e me sinta. Lembre-se do perfume, do primeiro dia que você se deu conta que poderia dar certo. Eu não tenho as mãos frias e você sabe o que isso significa. Não leve em conta as circunstâncias, porque elas são mutáveis. E você sabe do meu signo e o quanto eu levo isso a sério.

Não quero ver o dia amanhecer porque eu faço isso, quase todo dia. Não é novidade. Não tem nada de bonito nisso. Mas eu queria te ver acordando. Desgrenhado, preguiçoso e sem defesas. Cru e amado. Experimentado por mim no corpo e na alma. Não sou o tipo de mulher que sonha até a última gota. Eu quero alguém que mate a minha sede de vida, de cama, de alegria. E eu sei de cor teus limites, os mais rígidos e os frágeis, impostos para que não sofra com um amor mal resolvido.

Estou indo dormir e te dando um abraço daqui, beijando seu pescoço para encontrar um pouco de paz, sentindo seu coração batendo de nervoso ao ler isso, apenas pensando no quanto seria bom acordar mais tarde e ver você ao meu lado.

Quem sabe. O mundo é gigante. E ele gira.

Aryane Silva

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É só com afeto mesmo?

Você deve ter lido este título e pensado: “como ela se atreveu? ”. Pois é, eu me atrevi. Aliás, sou atrevida, principalmente com as palavras. Vim aqui porque ando com a cabeça confusa, cansada de falar, observar, notar e não ter as respostas que preciso.

Para resumir e finalizar  o folhetim ultrarromântico, pergunto: é só afeto mesmo? Continuar lendo

Escute, Isabela

Há alguns minutos, ouvi um homem gritar o nome da vizinha nova. Eu lia, e só dei importância ao fato por isso. O rapaz estava me desconcentrando com seus berros. E friso p plural, porque ele não chamou apenas uma vez, mas várias. A moça, que mora à minha esquerda, não atendeu a porta. Eu estava na página 133 e, pela insistência do cara, não consegui sair da palavra “botas”, última do título do capítulo. primeiro, ele chamou. Uma, duas, cinco vezes no mesmo tom  e nada. Em seguida, elevou a voz por mais algumas tentativas, como se ela pudesse pular o muro da casa. Murmurei um caramba! será que você não percebe que ela não está em casa? E meus olhos ainda nas botas literárias de Machado de Assis. Continuar lendo

Café e distrações

Você pode até tentar me provocar ciúmes, dizer que ela é linda, enumerando características que ela possui e eu não. Eu te falarei dos meus livros, minhas lutas pessoais e um pouco de Almodóvar, que você só conhece pela paleta de cores dos filmes.

Tentando ir além, você a levará para a festa em que estaremos e eu terei de engolir em seco palavrões quilométricos. Na minha transparência facial, você conquistará um ponto de vantagem. Nem ligo. O que são caras e bocas, perto do que a gente tem um com o outro? Continuar lendo

Àquele que não me tem (não como todo mundo)

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De todas as escolhas erradas que tomei na vida, você foi a certa. E aconteceu tão naturalmente que, quando me dei conta, estava acertando, meio sem querer. Em um mundo onde poucas pessoas me enxergam como eu realmente sou e se interessam em saber o que eu passei para me tornar essa pessoa que dorme e acorda ao seu lado, você foi o único que, de fato, se interessou por mim, em todos os ângulos possíveis. Continuar lendo

Nela

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Vou parar de pensar nela. É insano acordar e dormir pensando e sorrir feito idiota por algo que não sei se existe. Mas, cara, ela é um mundo à parte. Um mar bravo que eu não sei mergulhar de cabeça. Não estou tão certo se deveria, mas é o que o meu sexto sentido falho aconselha, e o medo, reprime.

Ninguém a ouviu sorrindo, como eu. Acredite, é contagiante. Ela é de um signo avesso à gargalhadas. Eu li em um site esotérico. É teimosa, ciumenta e tem grandes ambições. Eu queria ser um item desse pacote.
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Quando eu era pequena, tinha medo de aranhas.

De quebrar coisas.

De trovões.

De comer cachorro-quente e passar mal (até hoje tenho esse medo).

Eu cresci e os medos continuam os mesmos,

acrescidos de outros mais compreensíveis:

ficar em dependência em Filosofia,

ter filhos naturais,

levar um tiro,

perder as chaves de casa,

ficar presa no elevador. Continuar lendo

Carta – resposta ao teu sentimentalismo

time_is_on_my_side_by_no_secrets“Saudade das nossas conversas…”

Li isso e quase não acreditei. Em qual planeta você vive? Não há semântica capaz de dar sentido a uma frase dessas. Nem Freud saberia explicar de onde você tirou isso. Agora, eu te pergunto? Que conversas? Que saudades?

A tua ideia de pronome possessivo está meio defasada. “Nossas” se refere a algo que pertence a duas pessoas ou mais. Mas, neste caso, não houve isso. Apenas uma comunicação mecânica, do tipo que mantemos com o porteiro do prédio ou o caixa do banco. Era um “oi, tudo bem?” , seguido por um “estou bem sim e você?”. A eloquência, neste caso, passou longe.

E que saudade é essa que você diz ter? Quer posar de apaixonado, romântico incurável ou arrependido? Porque, meu bem, você não se enquadra a nenhum desses adjetivos. Aliás, relendo o que acabo de escrever, acho que você precisa de umas boas aulas de gramática e interpretação de texto.

Que fique claro: não existe nossas, nem saudades, muito menos conversas. Nós somos dois pedaços humanos que, a duras penas, tentam (e precisam) seguir em frente. Tivemos diversas oportunidades: as conversas até a madrugada que não aconteceram, a falta do outro no final do dia, o sentimento dividido… Até isso, você não conseguiu entender. Eu estava totalmente disponível, querendo, sentindo até o último fio de cabelo, esperando o teu “sim” para eu me jogar. Mas você preferiu ter medo e recuar.

Nosso tempo acabou.

E não adianta vir com palavras bonitas.

Agora eu sei ler as entrelinhas.

Aryane Silva

IMAGEM: No Secrets (Deviantart)