Diálogos (quase) possíveis – história 14

Outubro de 2013:

Ela estava com o coração pesado, triste e, ao mesmo tempo, feliz, por trazer dentro de si um sentimento tão bonito. Mas sentia sozinha. Ou achava que sim. Como sempre fazia, pegou papel e caneta e decidiu desabafar. Escreveu, mais ou menos, trinta linhas. De rebeldia – e após uma crise de choro – publicou o tal texto desaforado.

No dia seguinte, recebeu um e-mail. Seu coração bateu de expectativa, mas o tal sorriso de ao ler o nome do remetente, desapareceu. A crônica acertou o alvo (ainda que esta não fosse a intenção da autora). A mensagem recebida acertou seu coração, e não foi de um jeito bom.

“Li seu texto. Estou confuso. O que está acontecendo com você? Acho que entendeu tudo errado.”

Dezesseis palavras. Ela leu, releu, julgou sua interpretação um tanto falha. Trocou as pontuações por outras, na tentativa de encontrar um erro semântico, que alterasse o teor daquele e-mail. Não tinha como. Era aquilo mesmo. Como dezesseis palavras têm o poder de acabar com o dia de uma pessoa? Não importava mais. O que sentia havia sido roubado, quebrado em mil pedacinhos. Respondeu com um pedido de desculpas, como se amar alguém fosse um grande erro.  Preferiu se afastar, se achou boba, chorou mais um pouco por ter entregue seu melhor para alguém que não deu importância. Continuar lendo

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Diálogos (quase) possíveis – história 12

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Era quatro e catorze da manhã, quando ele despertou, sobressaltado. Quem dormia ao seu lado não notou, o que o fez lamentar aquele cenário. Ela, a outra, estava deitada de bruços, com uma das pernas para fora da cama, dormindo profundamente. Ele ficou sentado na cama, olhando-a dormir, esperando algum tipo de preocupação, ao menos murmurada, mas nada. Que porra eu tô fazendo da minha vida?, ele perguntou a si mesmo. Continuar lendo

Diálogos (quase) possíveis – história 11

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Estava quase tudo pronto para o jantar, quando o interfone tocou. Ela mal se conteve de tanta felicidade ao saber que a irmã mais velha estava do lado de fora, aguardando que abrissem o portão. Era o primeiro encontro delas depois de dez anos sem se falarem.

– Pensei que você não viesse. – disse a irmã mais nova, abraçando-a.

– Estou muito velha para deixar coisas pendentes. – riu a irmã mais velha, um pouco sem jeito para devolver o abraço, já que não era dada a demonstrações de carinho como aquela. Continuar lendo

Diálogos (quase) possíveis – história 10

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Ela estava terminando um trabalho da faculdade no laptop, quando um ícone de novo e-mail piscou na tela. Às pressas, clicou no ícone, porque já estava atrasada para a aula. Mas tudo à sua volta parou quando ela leu a mensagem:

Por favor, venha me ver. Preciso da sua ajuda. Estou em casa. Pegue a chave com a Lia.

Ela jogou o computador no sofá, ligou para a professora e deu uma desculpa para faltar à aula daquele dia, pegou a bolsa e chamou um táxi. Passou na casa de Lia, que era quase do outro lado da cidade, pegou a chave. Atravessou a cidade de volta, com o mesmo motorista e, duas horas e meia depois, estava tentando enfiar a chave na porta do apartamento dele, coisa difícil para quem estava trêmula e nervosa. Continuar lendo

Diálogos (quase) possíveis – história 9

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Ela estava fechando o laptop às três da manhã, após um relatório extenso, que deveria
entregar para o seu chefe, no dia seguinte, quando recebeu uma mensagem nova, em um dos seus endereços eletrônicos. Pensou em deixar para ler no dia seguinte, mas decidiu abrir, antes de ir dormir.

Seu coração bateu mais forte ao ler o remetente. Imaginou que, talvez, pudesse ser alguma
brincadeira de mau gosto, mas quem se daria ao trabalho de brincar às três da manhã? O e-mail foi curto e direto:

Ane,

Desculpe a hora, mas estou insone. E sei que você também está. Desculpe sumir por tanto

tempo, mas acho que ainda posso consertar isso.

Amanhã, às quatro da tarde, no lugar de sempre. Pode ser?

Vou te esperar.

Levi.
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Diálogos (quase) possíveis – história 7

Eram três e meia da manhã, quando ela terminava de escrever um texto sobre amores impossíveis. Pesquisou a imagem perfeita para ilustrar o post, mas o cansaço a fez escolher uma meia-boca mesmo. Ela postou na rede social, sabendo que estava atrasada, já que seus leitores sabiam as datas e horários certos das postagens. Ninguém está online agora, mas amanhã eles vão ler, pensou.

Antes de colocar o celular dentro da gaveta, como sempre faz antes de dormir, sentiu-o vibrar entre as cobertas. Desbloqueou a tela e ficou surpresa. Ele a chamou no bate-papo. Continuar lendo

Diálogos (quase) possíveis – história 5

Sete e meia da noite. Faltavam trinta minutos para começar o treino. Ela ponderou uma tarde inteira se iria ou não naquele dia. Chegando à academia, trocou de roupa, colocou a bolsa no lugar de sempre e pegou um livro para ler, enquanto aguardava a aula começar. Foi em direção à escada que dava acesso ao segundo piso e sentou-se no sexto degrau. Torceu para que ninguém viesse falar com ela. Mas ele chegou para frustrar suas expectativas.

– Nunca conheci alguém que lesse tanto quanto você. – ele sorriu.

– Aham. – ela murmurou, sem tirar os olhos do livro. Continuar lendo