In memorian

Na semana passada, enquanto tomava café da manhã, recebi uma notícia triste: o coordenador da minha faculdade havia morrido. Na hora, não consegui processar muito bem a notícia, porque era difícil acreditar naquilo. Na minha cabeça surgiam perguntas e porquês que eu não conseguia responder. Terminei de comer, mas aquela refeição não me caiu bem. Minha mente me transportava à última vez que nos vimos, no dia anterior. Continuar lendo

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Uma história sobre empatia (ou a falta dela)

Há três meses, fui “achada” por uma colega dos tempos de colégio, em uma rede social. Tomei um susto quando ela me mandou uma mensagem, me chamando pelo apelido de infância. E, ao mesmo tempo, achei graça por ela ter lembrado disso, depois de quase vinte anos. Conversamos trivialidades, nada muito profundo, porque já passava das onze da noite e eu estava caindo de sono.

No dia seguinte, ela me mandou uma nova mensagem, querendo marcar um encontro. Achei estranho. Nunca tive intimidade com ela, nem éramos tão amigas assim. Mas ela queria me ver de qualquer jeito. Sugeriu vários lugares, alguns próximos, outros nem tanto. Respondi que estava almoçando, que pensaria em algum lugar legal e depois combinaríamos.

No segundo dia, após nosso reencontro virtual, ela me mandou mais uma mensagem, me cobrando o tal chopp, que eu sequer gosto. Percebi que ela não era do tipo de pessoa que insiste apenas três vezes. Eu estava lendo um livro de letrinhas minúsculas, quando recebi a mensagem. Respondi com um “ok, fechado”. E já comecei a sofrer, só de pensar em ter que sair de casa. Continuar lendo

Metáfora da goiabeira

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Quando eu era pequena, estudava em uma “explicadora” que tinha uma goiabeira no quintal. Eu não sabia quando comecei o reforço escolar, mas depois descobri. Nunca fiquei tão feliz. Para driblar minha timidez, a explicadora me deixava pegar uma goiaba do pé, caso eu terminasse os trabalhos de casa. Eu não pensava duas vezes: colocava a preguiça de lado e fazia tudo certinho. Antes de sair pelo portão, eu subia em um banquinho de cimento e puxava uma goiaba branca. Fazia isso todo dia. Até que um dia me desequilibrei e caí. Ralei um pouco os dois cotovelos, mas não fiz estardalhaço, nem chorei. Só fui para a casa triste, sem minha fruta preferida na mochila. Continuar lendo

O que você faz quando as luzes se apagam?

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Quando eu era pequena, ficava apavorada quando acabava a luz do bairro. Isso sempre acontecia em dias de muita chuva. Estávamos vendo televisão e, do nada, tudo ficava um breu. Eu corria para o quarto da minha avó. Ela, que vivia na escuridão total por ser deficiente visual, sabia tirar aqueles menos de letra (menos quando estava calor, é claro). Eu entrava esbaforida, praticamente arrancando a porta do quarto. Ela já sabia que era eu e dizia: “acabou a luz, né?”, deixando um espaço na cama para eu deitar, logo em seguida.

Antigamente, os serviços prestados pela fornecedora de energia não eram tão ágeis como agora. Chegávamos a ficar três dias sem luz. Quando isso acontecia, eu torcia para amanhecer logo e aproveitar a luz do sol, mesmo que não pudesse assistir minhas novelas preferidas. Continuar lendo

Deixa eu te conhecer de novo?

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Era 2007, quando terminamos por telefone. Ele, grudento demais. Eu, buscando um amor tranquilo, como Cazuza cantou. Encerramos um telefonema que não demorou dois minutos. Tudo muito breve, direto. Desliguei, peguei as chaves de casa, a bolsa e fui para a faculdade, como se nada tivesse acontecido. Era só um relacionamento que não deu certo, por ene fatores: distância, bagagens, horizontes e gostos (musicais, literários, gastronômicos). Ele comia feijão gelado. Parece desejo de grávida, eu dizia. E ríamos, até a barriga doer. Continuar lendo

Aos maniqueístas

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O quinto livro que li na vida foi Dom Casmurro, de Machado de Assis. Eu tinha quinze anos e o li a pedido de uma professora de Literatura do Ensino Médio. Sendo sincera, não o fiz por nota ou coisa que o valha. Na verdade, o debate sobre a leitura só valeria um ponto e eu não era uma aluna que arrancava os cabelos por um pontinho. Na verdade, comecei a ler porque a professora prometeu que levaria as cinco melhores alunas para comer profiteroles. E, para ser sincera, mais uma vez, não sabia o que era, mas a descrição da sobremesa feita pela professora foi tão entusiasmada, que passei um final de semana me dedicando, de corpo e alma, para conseguir aquele doce.

Eu tinha uma semana para ler, mas me envolvi com Capitu e Bentinho e terminei em dois dias. Quando virei a última página, fiquei estática, olhando para o teto, me fazendo várias perguntas. Minha madrinha, que é acadêmica em Literatura, me olhou com um sorriso, todo orgulhoso. De certa forma, eu também estava, mas minha alegria acabou cinco dias depois. Continuar lendo

Tudo o que vai

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Aos dezessete anos ganhei uma máquina de escrever elétrica, como presente de aniversário. Fiquei toda boba, já que computador era uma raridade naquela época. Como eu estava em uma fase literária muito produtiva, usei o mimo à exaustão. E, para acomodá-la, havia uma escrivaninha e, de quebra, uma cadeira giratória e regulável. Me sentia a própria Clarice Lispector quando a usava. Nem o yorkshire que ganhei no ano seguinte me deixou tão feliz.

Anos depois – três anos, para ser mais exata – saí de casa para escrever a minha própria história, e não a levei comigo, porque os computadores se tornaram mais acessíveis. Em cada casa que morei usei um diferente e ainda assim senti falta de escrever e logo em seguida ver minhas palavras no papel, já que nem sempre havia uma impressora disponível e, quando havia, faltava tinta.

Liguei para minha antiga casa e perguntei à pessoa que me deu a máquina se eu podia passar lá qualquer dia desses para busca-la. A resposta veio com um golpe certeiro:

– Não está mais aqui. Eu vendi.

Como uma pessoa é capaz de vender um presente que ela mesma te deu e você não levou contigo por questões de logísticas, eu não sei. O fato é que minha máquina, meu xodó, estava em outro lugar, recontando outras histórias.

Aos vinte e três anos, me casei com um rapaz (meu atual marido) que, assim como eu, adora “relembrar os velhos tempos”. Conhecendo minha paixão pela escrita, desenterrou da casa da mãe uma máquina de escrever das antigas e me deu. Recebi com apreço, ainda mais sabendo a intenção e o carinho do gesto. Mas aquela ainda não era a máquina elétrica que eu tinha. Era menos suave e tinha um cheiro quase insuportável de óleo. Também não tinha a fita corretora que me ajudava um bocado, quando utilizava a outra. Mas, como sou adepta ao “vai tu mesmo”, a usei, sem reclamar. Nela, escrevi o rascunho de muitas crônicas que vocês leram aqui, anterior a essa.

Mas ainda não era a minha querida máquina.

Semana passada (isso quase um ano depois), minha sogra veio à minha casa, durante o café da manhã e comentou:

– Aryane, ontem eu ganhei um presente e lembrei de você: uma máquina de escrever elétrica! Nem sei o que vou fazer com ela. Para que vou querer aquilo?

Eu e meu marido nos entreolhamos.

– O que foi? – a mãe dele perguntou, curiosa.

– A Aryane tinha uma dessas, mãe, mas perdeu. Está querendo comprar outra.

Ela riu.

– Ué, para que comprar? Pode ficar com a minha.

E foi nela que escrevi esse texto, antes de digitar aqui (costume de escritor velho que não se adaptou às tecnologias).

Às vezes, quando perdemos algo, achamos que Deus é injusto com a gente ou não merecemos tal coisa. Mas a vida e sua perfeição, sempre nos devolve o que nos é tirado. Nesse texto, falo sobre algo material, passível de futura aquisição. E não escrevo sobre o objeto em si e sim o sentimento de perda.

Contei essa história para deixar uma mensagem para vocês. Tudo volta. O que é nosso, volta. Por mais que percamos um ente querido, ele sempre estará vivo e voltará nas lembranças de seus pratos preferidos ou músicas que mais gostava, relembrados por nós, que aqui ficamos. Se perdemos um emprego bacana, encontramos um melhor ainda, onde somos valorizados como profissionais. Se um amigo nos virou as costas, fazemos novas amizades. Se um amor não foi correspondido, outro virá para transbordar. Pode ser que não voltem como queríamos, mas voltam.

O leite derrama, a luz apaga, as portas se fecham, mas estamos aqui.

E enquanto estamos aqui, a vida continua.

Aryane Silva