Do outro lado do adeus

Só me lembro que foi em algum dia de abril, com chuvas torrenciais e medo de enchentes. Estava prestes a sair de casa para ir ao trabalho, quando abri o portão e dei um passo para trás, assustada. Meu guarda-chuva caiu da minha mão e rolou calçada abaixo por causa do vento forte. Engoli algumas gotas de chuva e a vontade de chorar. Você, absolutamente tranquilo, mas eu sabia ler seus olhos.

Disse que estava atrasada para o trabalho. Você deu aquele sorrisinho de canto de boca, como se não se importasse com isso. Eu queria sair correndo ou voltar para casa, mas estava no limite entre adiar ou enfrentar. E eu não sabia mais o que fazer. Você não era mais o Rafa que eu conhecia. Era apenas o Rafael, de sobrenome difícil de pronunciar.

“Posso entrar?”, você me perguntou à queima-roupa. “Já disse que estou atrasada”, respondi, sabendo que não iria a lugar nenhum. E você ficou ali, em pé, me olhando como se eu fosse um livro escrito em língua morta. Às vezes franzia a testa ou ria, não sei de ironia ou por outro motivo. Senti meu corpo inteiro tremer, de frio, saudade e medo. Aquele receio que toda a pessoa que fica do outro lado do adeus, sente.

“Um dia, Ane, você vai entender o que aconteceu aqui e agora. Vai lembrar de cada detalhe deste momento, cada palavra não dita e terá uma espécie de curiosidade. Espero, de coração, que você nunca passe pelo o que eu estou passando. Uma das coisas mais verdadeiras que você me ensinou foi ter a hora de chegar e perceber a hora de ir. Só precisava te ver, pela última vez, como se fosse a primeira”.

Você virou as costas e foi embora. Eu fiquei na chuva. E agora chove. Sua profecia se confirmou. Só estava errado em uma coisa: agora eu sei o que é estar do outro lado do adeus.

Aryane Silva

Imagem: Pinterest

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Não precisa ler. É carnaval!

carnaval_by_petitebulledesavon

Sei que muita gente está, neste momento, arrumando suas malas para curtir o carnaval. Talvez, tudo o que eu escreva aqui não será lido. Mas hoje é quinta-feira e, como sempre, não poderia deixar de postar o texto semanal. Talvez, se eu fosse um pouco mais relapsa, digitaria uma crônica antiga, que não faria diferença alguma, já que ninguém vai ler um texto imenso, enquanto está aquecendo seus tamborins para os dias de folia.

Mas eu lembrei de uma história sobre carnaval. Aliás, várias, mas vou me dedicar a apenas uma. Tentarei ser breve. Mas, se a coisa toda ficar longa demais, pode parar no “continue lendo”, ok?

Vejo muita gente polemizar relacionamentos nessa época do ano. Hoje, inclusive, eu ouvi uma mulher responder que o carnaval é uma data esperada, porque tudo é permitido nestes quatro dias, a uma repórter de rua. Fiquei pensando o que é isso tudo a que ela se refere. Em que planeta eu vivo que eu ainda não experimentei esse tudo? Que tudo é esse que não pode ser aproveitado nos outros dias da nossa vida? Pensei, pensei e cheguei à conclusão que talvez seja algo de outro mundo ou inimaginável.

Então lembrei de mim e encontrei a resposta. Continuar lendo

– Posso te cobrir?

– Ué? Não vai dormir na cama, Ane? – Rafael me perguntou, ao ver que eu caminhava pela sala segurando três travesseiros.

– Isso parece uma cama para você? – devolvi a pergunta em som sarcástico, apontando para o sofá.

– Não, não parece. – ele seguiu meus movimentos com os olhos e continuou – Posso te cobrir?

– Está frio para isso, Rafael? Em pleno mês de Dezembro, acha que eu vou dormir coberta?

– Você que diz que não pode dormir descoberta, senão o anjinho foge. – ele riu, sem jeito.

– Meu anjo já cansou de me ver pelada. E isso é uma história entre mim e minha Vó Maria.

Eu estava tentando ouvir o que Hugh Grant dizia para Julia Roberts dentro da livraria, mas não consegui. Era a primeira vez que via o filme com meus dois atores preferidos e, para completar, Rafael me crivava de perguntas.

– Você me chamou de Rafael. Agora que eu me dei conta.

– E por acaso esse não é seu nome? – disse, sem olhá-lo.

– Você só me chama pelo nome quando a coisa tá preta pro meu lado.

– Sim, está preta, azul, amarela, roxa… Todas as cores.

Ele levantou do sofá e foi andando até seu quarto. Antes de cruzar a porta, me olhou de um jeito que nunca vou esquecer.

– Você está irritada desse jeito só por que eu disse para sua amiga, em tom de brincadeira, que você é minha?

– Acha pouco? Eu não sou de ninguém. Não sou uma porra de um objeto para ter um dono. Eu ESTOU com você, não sou sua. – disse, elevando o tom de voz, mais irritada ao ver os créditos do filme escalando a tela da tevê.

Ele me olhou e ficou em silêncio por alguns segundos.

– Uma vez vi meu avô brigar com minha avó. Eles nunca discutiam, em anos de casamento. Não levantavam a voz, nem colocavam o dedo na cara do outro. Nesse dia, ele saiu do quarto com um travesseiro e um lençol nos braços e abriu espaço no colchonete para dormir ao meu lado. Eu sabia o porquê daquela visita no meio da noite, então preferi não perguntar. Durante a madrugada, meu avô levantou algumas vezes e foi, pé ante pé ao quarto onde minha avó dormia. Da sala, eu conseguia ver: ele cobria minha avó e voltava para o meu lado. Sussurrando, eu perguntei por que ele fazia aquilo, já que minha avó tinha sido grosseira com ele. Ele me respondeu que esse era o código que ele usava para mostrar seu amor, seu cuidado. Que daquela forma, eles não dormiriam brigados. Enfim… Está tarde. Amanhã nos falamos. Se quiser alguma coisa, só pegar na geladeira. Fique à vontade. Ah, antes que eu me esqueça: coloca no HBO2, esse filme vai passar novamente daqui a vinte minutos.

Ele atravessou a porta do quarto, fechando-a em seguida.

Fiz como ele pediu. Coloquei no canal e aguardei o início do filme que perdi. Enquanto o anterior terminava, fiquei pensando no que ele havia me contado sobre seus avós. Rafa sempre tinha histórias lindas como exemplos práticos para me explicar as coisas. Eu, taurina teimosa, que usava antolhos para a vida, me via desarmada quando ele narrava suas lembranças de infância. Por um momento, eu quis ter um amor como o de seus avós e de seus pais. Eu, que naquela época achava o amor o sentimento mais filho da puta que existe, passei a me questionar que talvez, TALVEZ, não seria tão mal experimentar um pouquinho, assim, sem compromisso, como quem não quer nada.

Vi o filme, depois outro e já estava no terceiro, quando decidi ir ao quarto do Rafa. A porta estava encostada e somente um abajur iluminava o cômodo. Ele estava atravessado na cama, com as pernas coladas na parede, como ele sempre fazia quando estava triste. Ele dizia que aquela posição o fazia pensar. Um dos fones de seu MP3 estava em seu ouvido, outro caído pela lateral da cama. Ele adormeceu ouvindo música. Curiosa, aproximei o fone caído da orelha e sorri ao identificar a música. Era Piano In The Dark, de Brenda Russell, a minha música preferida, tocando no repeat. Pensei em acordá-lo, mas desisti. Em vez disso, peguei uma colcha de retalhos que ele tinha desde os dez anos, fechei a porta devagar, fui para a sala e, desligando a tevê, me enrosquei nela e dormi.

Hoje, depois de alguns anos desse acontecimento, tenho a certeza de uma coisa: o amor é muito mais que um sentimento. É uma conexão rara.

Aryane Silva

 

Vídeo: YouTube