Eu tenho que aprender a te deixar pra lá

Passei o dia inteiro ouvindo a mesma música, repetidas vezes. Não é um costume meu, bem sabes. Agora, antes de dormir, entendi o porquê: a música fala de nós dois.  Não te conheço o suficiente para saber se você acredita em destino e nas voltas que o mundo dá para atender aos caprichos de um Universo teimoso. Às vezes também desacredito. Às vezes olho para o céu e não vejo nenhuma estrela. Às vezes me pergunto por que ainda devo acreditar em tudo isso. Continue lendo “Eu tenho que aprender a te deixar pra lá”

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A carta

Essa foto contém amor. Muito amor.

Era dezembro do ano passado, quando alguém me chamou no portão da minha casa. Pela voz infantil, já sabia que era um dos meus alunos. Era o Kauã, que já tinha aparecido antes, para me dar o presente de Natal. Mas ele voltou, desta vez com outro presente. Ele segurava uma sacola de papel pardo e tinha um sorriso estampado no rosto. Sorri junto, porque quando se trata dele, é inevitável não sorrir quando ele está por perto.

Primeiro, ele me contou que conseguiu vaga em uma das escolas mais disputadas do bairro e da prefeitura do Rio de Janeiro.  Fiquei muito feliz por ele, porque sei que só os melhores alunos são direcionados para lá. Naquele momento, eu ganhei o ano e senti que meu trabalho de dez meses não foi em vão. Continue lendo “A carta”

Questão de empatia

Esta semana precisei ir ao banco para cadastrar a biometria. Só de pensar em ter que passar por uma porta giratória e ficar lá dentro, presa com um monte de gente esperando atendimento, já me deixou tensa. Não consegui dormir na noite anterior. Tentei ver televisão, mas não consegui. Ler, nem pensar. Nada conseguiu me acalmar, nem o remédio que eu uso nessas circunstâncias. Tenho certeza que você deve estar pensando: “meu Deus do céu! Um estardalhaço por causa de uma ida ao banco?”. Eu te entendo. Muita gente pensa a mesma coisa. Continue lendo “Questão de empatia”

Mixórdia

São quase cinco da manhã. Chove bastante aqui na minha cidade. E eu, apesar de saber tantas coisas, ainda não sei o que eu fiz para que você ficasse tão indiferente a mim. Ok, concordo que eu não sou uma pessoa tão acessível. Prezo pelo falar pouco ou quase não falar. Sou do pensar e quase não agir. Mas tudo isto tem uma razão de ser e so com você eu sou diferente. Contigo, eu quero conversar até o amanhecer. Quero rir de piadas bobas e fazer planos. Lembra da viagem de ônibus a outro país, que comentamos e que, depois de uma risada descrente minha, você disse que era sério? Lembra do convite para ver o céu estrelado e amanhecer contigo? Pois é, nada disso se concretizou. E eu me pergunto o porquê de não termos forças para dizer, quando haviam tantos sinais. Acima de tudo, nos propomos um jogo perigoso, elástico, do quase-beija, quase-diz-que-ama, quase-liga. Uma competição que não pretendíamos ganhar por covardia, por um desejo que ardia e que só viveu de fantasia. Continue lendo “Mixórdia”

Do outro lado do adeus

Só me lembro que foi em algum dia de abril, com chuvas torrenciais e medo de enchentes. Estava prestes a sair de casa para ir ao trabalho, quando abri o portão e dei um passo para trás, assustada. Meu guarda-chuva caiu da minha mão e rolou calçada abaixo por causa do vento forte. Engoli algumas gotas de chuva e a vontade de chorar. Você, absolutamente tranquilo, mas eu sabia ler seus olhos.

Disse que estava atrasada para o trabalho. Você deu aquele sorrisinho de canto de boca, como se não se importasse com isso. Eu queria sair correndo ou voltar para casa, mas estava no limite entre adiar ou enfrentar. E eu não sabia mais o que fazer. Você não era mais o Rafa que eu conhecia. Era apenas o Rafael, de sobrenome difícil de pronunciar.

“Posso entrar?”, você me perguntou à queima-roupa. “Já disse que estou atrasada”, respondi, sabendo que não iria a lugar nenhum. E você ficou ali, em pé, me olhando como se eu fosse um livro escrito em língua morta. Às vezes franzia a testa ou ria, não sei de ironia ou por outro motivo. Senti meu corpo inteiro tremer, de frio, saudade e medo. Aquele receio que toda a pessoa que fica do outro lado do adeus, sente.

“Um dia, Ane, você vai entender o que aconteceu aqui e agora. Vai lembrar de cada detalhe deste momento, cada palavra não dita e terá uma espécie de curiosidade. Espero, de coração, que você nunca passe pelo o que eu estou passando. Uma das coisas mais verdadeiras que você me ensinou foi ter a hora de chegar e perceber a hora de ir. Só precisava te ver, pela última vez, como se fosse a primeira”.

Você virou as costas e foi embora. Eu fiquei na chuva. E agora chove. Sua profecia se confirmou. Só estava errado em uma coisa: agora eu sei o que é estar do outro lado do adeus.

Aryane Silva

Imagem: Pinterest

Diálogos (quase) possíveis – história 15

“Sentirei sua falta.”

“Eu sei. “

– Bom dia, dorminhoca! Sabe que horas são? – perguntou o marido, dando-lhe um beijo na testa.

– Nem imagino. Mas hoje é feriado. Me dá um desconto, vai? – ela respondeu, sem olhar para ele.

– Você está bem? Dormiu mal?

Ela pensou na resposta certa, mas preferiu se calar e mudar de assunto.

– Você pagou a conta de luz, Fernando?

– Paguei, amor. Algum problema?

– Não, nada. Continue lendo “Diálogos (quase) possíveis – história 15”

O preço da corvadia

Eu me escondo, não nego.

Apareço quando puder.

Parafraseio o que me resta,

depois da tentativa de afirmar o óbvio.

Isso, tudo isso, eu terei de carregar sozinha.

As cartas rasgadas,

as dedicatórias arrancadas dos livros presenteados,

a saudade esmagadora.

Eu tenho muita novidade pra contar,

que eu queria que só você soubesse.

Mas já passa das duas,

você está em outra cidade,

eu não paro de escutar a nossa música,

tive um sonho estranho à tarde,

sinto um desconforto dentro de mim,

algo perdido no universo que sou,

um universo que guarda a tua lembrança,

faz figa e preserva seu lugar na cama,

mas que dorme na espera.

Sigo não sabendo,

apostando algumas fichas,

despistando a melancolia que me persegue,

aguentando como dá.

Fazendo prece, ,cruzando os dedos, chorando no banheiro,

fingindo que está tudo bem,

quando não está.

E essa coragem que me falta,

essa, que você também não tem,

nos mantém afastados em uma indiferença protetora,

e ressurge no livro que estou lendo,

e que eu já estou pensando em abandonar,

antes que eu volte atrás,

e tome impulso.

Eu não quero mais você na minha vida.

Mas confesso que é quase insuportável viver negando isso.

Aryane Silva

Para você lembrar de mim

Eu não vou deixar você me esquecer tão rápido. Ainda não sei como fazer isso, porque minha tendência é me afastar quando percebo que a sintonia não é mais a mesma. Mas vou arranjar um jeito, uma maneira de ficar para sempre contigo.

Eu acredito em lembranças bonitas, vividas ou não. Naquelas que moram em fotos e nas que o coração cria. O meu tem uma imaginação muito fértil. Está apegado a você como personagem. Continue lendo “Para você lembrar de mim”

Teimosia

 

Era para eu ter dito a você, naquele momento, naquela conversa banal, que eu te queria, mas que não insistiria mais. Porque é cansativo, eu não tenho paciência para voltas, e porque você não quer também. É, eu poderia ter dito, mas preferi me calar e fingir que a sua indiferença não me doeu. Menti para mim mesma, acreditando que não dói em você também.

Continue lendo “Teimosia”

In memorian

Na semana passada, enquanto tomava café da manhã, recebi uma notícia triste: o coordenador da minha faculdade havia morrido. Na hora, não consegui processar muito bem a notícia, porque era difícil acreditar naquilo. Na minha cabeça surgiam perguntas e porquês que eu não conseguia responder. Terminei de comer, mas aquela refeição não me caiu bem. Minha mente me transportava à última vez que nos vimos, no dia anterior. Continue lendo “In memorian”