Do outro lado do adeus

Só me lembro que foi em algum dia de abril, com chuvas torrenciais e medo de enchentes. Estava prestes a sair de casa para ir ao trabalho, quando abri o portão e dei um passo para trás, assustada. Meu guarda-chuva caiu da minha mão e rolou calçada abaixo por causa do vento forte. Engoli algumas gotas de chuva e a vontade de chorar. Você, absolutamente tranquilo, mas eu sabia ler seus olhos.

Disse que estava atrasada para o trabalho. Você deu aquele sorrisinho de canto de boca, como se não se importasse com isso. Eu queria sair correndo ou voltar para casa, mas estava no limite entre adiar ou enfrentar. E eu não sabia mais o que fazer. Você não era mais o Rafa que eu conhecia. Era apenas o Rafael, de sobrenome difícil de pronunciar.

“Posso entrar?”, você me perguntou à queima-roupa. “Já disse que estou atrasada”, respondi, sabendo que não iria a lugar nenhum. E você ficou ali, em pé, me olhando como se eu fosse um livro escrito em língua morta. Às vezes franzia a testa ou ria, não sei de ironia ou por outro motivo. Senti meu corpo inteiro tremer, de frio, saudade e medo. Aquele receio que toda a pessoa que fica do outro lado do adeus, sente.

“Um dia, Ane, você vai entender o que aconteceu aqui e agora. Vai lembrar de cada detalhe deste momento, cada palavra não dita e terá uma espécie de curiosidade. Espero, de coração, que você nunca passe pelo o que eu estou passando. Uma das coisas mais verdadeiras que você me ensinou foi ter a hora de chegar e perceber a hora de ir. Só precisava te ver, pela última vez, como se fosse a primeira”.

Você virou as costas e foi embora. Eu fiquei na chuva. E agora chove. Sua profecia se confirmou. Só estava errado em uma coisa: agora eu sei o que é estar do outro lado do adeus.

Aryane Silva

Imagem: Pinterest

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Diálogos (quase) possíveis – história 15

“Sentirei sua falta.”

“Eu sei. “

– Bom dia, dorminhoca! Sabe que horas são? – perguntou o marido, dando-lhe um beijo na testa.

– Nem imagino. Mas hoje é feriado. Me dá um desconto, vai? – ela respondeu, sem olhar para ele.

– Você está bem? Dormiu mal?

Ela pensou na resposta certa, mas preferiu se calar e mudar de assunto.

– Você pagou a conta de luz, Fernando?

– Paguei, amor. Algum problema?

– Não, nada. Continuar lendo

O preço da corvadia

Eu me escondo, não nego.

Apareço quando puder.

Parafraseio o que me resta,

depois da tentativa de afirmar o óbvio.

Isso, tudo isso, eu terei de carregar sozinha.

As cartas rasgadas,

as dedicatórias arrancadas dos livros presenteados,

a saudade esmagadora.

Eu tenho muita novidade pra contar,

que eu queria que só você soubesse.

Mas já passa das duas,

você está em outra cidade,

eu não paro de escutar a nossa música,

tive um sonho estranho à tarde,

sinto um desconforto dentro de mim,

algo perdido no universo que sou,

um universo que guarda a tua lembrança,

faz figa e preserva seu lugar na cama,

mas que dorme na espera.

Sigo não sabendo,

apostando algumas fichas,

despistando a melancolia que me persegue,

aguentando como dá.

Fazendo prece, ,cruzando os dedos, chorando no banheiro,

fingindo que está tudo bem,

quando não está.

E essa coragem que me falta,

essa, que você também não tem,

nos mantém afastados em uma indiferença protetora,

e ressurge no livro que estou lendo,

e que eu já estou pensando em abandonar,

antes que eu volte atrás,

e tome impulso.

Eu não quero mais você na minha vida.

Mas confesso que é quase insuportável viver negando isso.

Aryane Silva

Para você lembrar de mim

Eu não vou deixar você me esquecer tão rápido. Ainda não sei como fazer isso, porque minha tendência é me afastar quando percebo que a sintonia não é mais a mesma. Mas vou arranjar um jeito, uma maneira de ficar para sempre contigo.

Eu acredito em lembranças bonitas, vividas ou não. Naquelas que moram em fotos e nas que o coração cria. O meu tem uma imaginação muito fértil. Está apegado a você como personagem. Continuar lendo

Teimosia

 

Era para eu ter dito a você, naquele momento, naquela conversa banal, que eu te queria, mas que não insistiria mais. Porque é cansativo, eu não tenho paciência para voltas, e porque você não quer também. É, eu poderia ter dito, mas preferi me calar e fingir que a sua indiferença não me doeu. Menti para mim mesma, acreditando que não dói em você também.

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In memorian

Na semana passada, enquanto tomava café da manhã, recebi uma notícia triste: o coordenador da minha faculdade havia morrido. Na hora, não consegui processar muito bem a notícia, porque era difícil acreditar naquilo. Na minha cabeça surgiam perguntas e porquês que eu não conseguia responder. Terminei de comer, mas aquela refeição não me caiu bem. Minha mente me transportava à última vez que nos vimos, no dia anterior. Continuar lendo

Última chance

Aham, acabou. Foi a última dose. Sem pena, remorso ou rancor. Nada me dói ou me desespera. Durou o tempo que foi necessário para que eu aprendesse a não acreditar em palavras macias e expectativas surreais. Te desejo sorte por aí, no que você queira, no que você plante, fale ou finja amar. Parabéns, curta sua vida cheia de pautas. Eu já te disse, não caibo em entrelinhas. Vá enganar-se, perder-se, iludir alguém que tenha o coração mole como o meu. Nao vou te sabotar. Aqui, apenas good vibrations. Vou seguir meu destino, viver como se fosse hoje, amar como se não houvesse amanhã, porque eu não sou dessas que querem um conto de fadas morno. Eu gosto do que pega fogo, me deixa sabores e uma boa impressão para lembrar no dia seguinte. Vai, segue tua estrada. Aqui fica a versão que te convém, mais polida, superficial, apressada no trato e no olhar.

Good lucky!

Aryane Silva

IMAGEM: Petra Collins (Pinterest)

Agora

Enquanto alguns já estão dormindo faz tempo, eu estou aqui, insistindo, persistindo, na esperança que você me leia, porque eu quero o teu sentir além do óbvio das palavras. Aliás, eu quero muitas coisas, que nunca foram ditas assim, tão abertamente. Saiba: eu detesto as entrelinhas e duplas interpretações.

Só te peço uma coisa, se me lê agora (ou se me ler amanhã, ou depois, ou depois…): pare o que estiver fazendo e me sinta. Lembre-se do perfume, do primeiro dia que você se deu conta que poderia dar certo. Eu não tenho as mãos frias e você sabe o que isso significa. Não leve em conta as circunstâncias, porque elas são mutáveis. E você sabe do meu signo e o quanto eu levo isso a sério.

Não quero ver o dia amanhecer porque eu faço isso, quase todo dia. Não é novidade. Não tem nada de bonito nisso. Mas eu queria te ver acordando. Desgrenhado, preguiçoso e sem defesas. Cru e amado. Experimentado por mim no corpo e na alma. Não sou o tipo de mulher que sonha até a última gota. Eu quero alguém que mate a minha sede de vida, de cama, de alegria. E eu sei de cor teus limites, os mais rígidos e os frágeis, impostos para que não sofra com um amor mal resolvido.

Estou indo dormir e te dando um abraço daqui, beijando seu pescoço para encontrar um pouco de paz, sentindo seu coração batendo de nervoso ao ler isso, apenas pensando no quanto seria bom acordar mais tarde e ver você ao meu lado.

Quem sabe. O mundo é gigante. E ele gira.

Aryane Silva

Via

​É, eu não sou mais a mesma. Confesso que ainda fico espantada quando escrevo e digo isso. Depois de muito pensar, percebi que andei em círculo durante muito tempo, levando comigo uma angústia teimosa, alimentando uma esperança cheia de metáforas clichês. É, eu mudei. Ou melhor, estou mudando. Eu precisei ter o coração machucado para me ver e conhecer o que tenho de bonito. Não está sendo fácil. Não é cômodo como eu pensei que seria, principalmente porque você ainda está do outro lado da corda. Mas eu resisto. Aprendi a negar muitas coisas para a minha vaidade, tão carente de surpresas agradáveis. Eu não sou mais aquela que ama sem medidas, sem retribuição, sem a alegria dos pequenos gestos. Entendi que não se trata da via e sim da vontade de duas pessoas em caminharem juntas. Isso serve para amigos e amores. E para você também. 

Aryane Silva

Imagem: Pinterest

Diálogos (quase) possíveis – história 14

Outubro de 2013:

Ela estava com o coração pesado, triste e, ao mesmo tempo, feliz, por trazer dentro de si um sentimento tão bonito. Mas sentia sozinha. Ou achava que sim. Como sempre fazia, pegou papel e caneta e decidiu desabafar. Escreveu, mais ou menos, trinta linhas. De rebeldia – e após uma crise de choro – publicou o tal texto desaforado.

No dia seguinte, recebeu um e-mail. Seu coração bateu de expectativa, mas o tal sorriso de ao ler o nome do remetente, desapareceu. A crônica acertou o alvo (ainda que esta não fosse a intenção da autora). A mensagem recebida acertou seu coração, e não foi de um jeito bom.

“Li seu texto. Estou confuso. O que está acontecendo com você? Acho que entendeu tudo errado.”

Dezesseis palavras. Ela leu, releu, julgou sua interpretação um tanto falha. Trocou as pontuações por outras, na tentativa de encontrar um erro semântico, que alterasse o teor daquele e-mail. Não tinha como. Era aquilo mesmo. Como dezesseis palavras têm o poder de acabar com o dia de uma pessoa? Não importava mais. O que sentia havia sido roubado, quebrado em mil pedacinhos. Respondeu com um pedido de desculpas, como se amar alguém fosse um grande erro.  Preferiu se afastar, se achou boba, chorou mais um pouco por ter entregue seu melhor para alguém que não deu importância. Continuar lendo