Mercúrio retrógrado

Eu tentei.

Juro que tentei.

E te olhar foi muito difícil.

Na minha cabeça, tudo estava errado.

Mas como eu poderia te dizer?

Como chegar e colocar meu coração na mesa e entregar tudo o que eu escondia?

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Tão sincero

Eu te amo

e para dizer isso

poderia usar todos os tipos de metáforas.

Mas nenhuma delas teria o tamanho do seu abraço,

do carinho em perguntar se estou bem,

a compreensão em entender minhas escolhas. Continue lendo “Tão sincero”

O mundo é fraco para o amor dos fortes

Hoje à tarde fui ao centro comercial do meu bairro, resolver algumas pendências. Confesso que não estava com muita vontade, mas tenho andado adepta a não adiar o que pode ser resolvido na hora. A rua cheia de pessoas, as marchinhas de carnaval ecoando nas lojas e a animação daquele mar de gente me fez um bem danado. Senti a energia positiva e efervescente daqueles que contam os dias para cair na folia. Passei por uma rua de paralelepípedos, abarrotada de gente e fantasias expostas e, em uma das lojas, ouvi uma música latina tocando. Sorri.

Parei para tomar um sorvete e ri para um bebê no colo de uma mulher que andava à minha frente. Alguma coisa o fez rir também. Na mesma hora, passei a mão nos meus cabelos, que soltos sempre despertam sorrisos em pequenos  que sequer falam. A criança estava com o olhar tão fixo em mim, que a mãe se virou. Ela sorriu e seguiu seu caminho. Pensei ” o que eu tenho que todo mundo está sorrindo hoje?“. Vi que o dia começou bem e supus que terminaria melhor ainda.

Até a hora de voltar para casa. Continue lendo “O mundo é fraco para o amor dos fortes”

“Di” (para ler ao som de Vento no Litoral)

Que fique claro: não queria me apaixonar. Eu era daquelas jovens que acreditavam que o amor só aparece uma vez na vida e, meses antes, eu tinha terminado um relacionamento de quatro anos. Na época, eu tinha certeza que era amor. Comecei a duvidar quando terminamos em outubro de 2001.

Em janeiro de 2002, algo diferente aconteceu. E é delicioso lembrar, dezesseis anos depois.

– Você vai ao luau do condomínio? – minha vizinha me perguntou, quando eu estava entrando no prédio.

– Luau? Não estava sabendo. – respondi, educadamente, querendo não estender a conversa.

– Sim, estamos organizando um. Sempre fazemos eventos como esse. Você quer ir?

– Não sei. Vou ver. – respondi, abrindo a porta do apartamento e encerrando a conversa. Continue lendo ““Di” (para ler ao som de Vento no Litoral)”

Eu tenho que aprender a te deixar pra lá

Passei o dia inteiro ouvindo a mesma música, repetidas vezes. Não é um costume meu, bem sabes. Agora, antes de dormir, entendi o porquê: a música fala de nós dois.  Não te conheço o suficiente para saber se você acredita em destino e nas voltas que o mundo dá para atender aos caprichos de um Universo teimoso. Às vezes também desacredito. Às vezes olho para o céu e não vejo nenhuma estrela. Às vezes me pergunto por que ainda devo acreditar em tudo isso. Continue lendo “Eu tenho que aprender a te deixar pra lá”

Mixórdia

São quase cinco da manhã. Chove bastante aqui na minha cidade. E eu, apesar de saber tantas coisas, ainda não sei o que eu fiz para que você ficasse tão indiferente a mim. Ok, concordo que eu não sou uma pessoa tão acessível. Prezo pelo falar pouco ou quase não falar. Sou do pensar e quase não agir. Mas tudo isto tem uma razão de ser e so com você eu sou diferente. Contigo, eu quero conversar até o amanhecer. Quero rir de piadas bobas e fazer planos. Lembra da viagem de ônibus a outro país, que comentamos e que, depois de uma risada descrente minha, você disse que era sério? Lembra do convite para ver o céu estrelado e amanhecer contigo? Pois é, nada disso se concretizou. E eu me pergunto o porquê de não termos forças para dizer, quando haviam tantos sinais. Acima de tudo, nos propomos um jogo perigoso, elástico, do quase-beija, quase-diz-que-ama, quase-liga. Uma competição que não pretendíamos ganhar por covardia, por um desejo que ardia e que só viveu de fantasia. Continue lendo “Mixórdia”

Do outro lado do adeus

Só me lembro que foi em algum dia de abril, com chuvas torrenciais e medo de enchentes. Estava prestes a sair de casa para ir ao trabalho, quando abri o portão e dei um passo para trás, assustada. Meu guarda-chuva caiu da minha mão e rolou calçada abaixo por causa do vento forte. Engoli algumas gotas de chuva e a vontade de chorar. Você, absolutamente tranquilo, mas eu sabia ler seus olhos.

Disse que estava atrasada para o trabalho. Você deu aquele sorrisinho de canto de boca, como se não se importasse com isso. Eu queria sair correndo ou voltar para casa, mas estava no limite entre adiar ou enfrentar. E eu não sabia mais o que fazer. Você não era mais o Rafa que eu conhecia. Era apenas o Rafael, de sobrenome difícil de pronunciar.

“Posso entrar?”, você me perguntou à queima-roupa. “Já disse que estou atrasada”, respondi, sabendo que não iria a lugar nenhum. E você ficou ali, em pé, me olhando como se eu fosse um livro escrito em língua morta. Às vezes franzia a testa ou ria, não sei de ironia ou por outro motivo. Senti meu corpo inteiro tremer, de frio, saudade e medo. Aquele receio que toda a pessoa que fica do outro lado do adeus, sente.

“Um dia, Ane, você vai entender o que aconteceu aqui e agora. Vai lembrar de cada detalhe deste momento, cada palavra não dita e terá uma espécie de curiosidade. Espero, de coração, que você nunca passe pelo o que eu estou passando. Uma das coisas mais verdadeiras que você me ensinou foi ter a hora de chegar e perceber a hora de ir. Só precisava te ver, pela última vez, como se fosse a primeira”.

Você virou as costas e foi embora. Eu fiquei na chuva. E agora chove. Sua profecia se confirmou. Só estava errado em uma coisa: agora eu sei o que é estar do outro lado do adeus.

Aryane Silva

Imagem: Pinterest

Diálogos (quase) possíveis – história 15

“Sentirei sua falta.”

“Eu sei. “

– Bom dia, dorminhoca! Sabe que horas são? – perguntou o marido, dando-lhe um beijo na testa.

– Nem imagino. Mas hoje é feriado. Me dá um desconto, vai? – ela respondeu, sem olhar para ele.

– Você está bem? Dormiu mal?

Ela pensou na resposta certa, mas preferiu se calar e mudar de assunto.

– Você pagou a conta de luz, Fernando?

– Paguei, amor. Algum problema?

– Não, nada. Continue lendo “Diálogos (quase) possíveis – história 15”

O preço da corvadia

Eu me escondo, não nego.

Apareço quando puder.

Parafraseio o que me resta,

depois da tentativa de afirmar o óbvio.

Isso, tudo isso, eu terei de carregar sozinha.

As cartas rasgadas,

as dedicatórias arrancadas dos livros presenteados,

a saudade esmagadora.

Eu tenho muita novidade pra contar,

que eu queria que só você soubesse.

Mas já passa das duas,

você está em outra cidade,

eu não paro de escutar a nossa música,

tive um sonho estranho à tarde,

sinto um desconforto dentro de mim,

algo perdido no universo que sou,

um universo que guarda a tua lembrança,

faz figa e preserva seu lugar na cama,

mas que dorme na espera.

Sigo não sabendo,

apostando algumas fichas,

despistando a melancolia que me persegue,

aguentando como dá.

Fazendo prece, ,cruzando os dedos, chorando no banheiro,

fingindo que está tudo bem,

quando não está.

E essa coragem que me falta,

essa, que você também não tem,

nos mantém afastados em uma indiferença protetora,

e ressurge no livro que estou lendo,

e que eu já estou pensando em abandonar,

antes que eu volte atrás,

e tome impulso.

Eu não quero mais você na minha vida.

Mas confesso que é quase insuportável viver negando isso.

Aryane Silva