Diálogos (quase) possíveis – história 11

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Estava quase tudo pronto para o jantar, quando o interfone tocou. Ela mal se conteve de tanta felicidade ao saber que a irmã mais velha estava do lado de fora, aguardando que abrissem o portão. Era o primeiro encontro delas depois de dez anos sem se falarem.

– Pensei que você não viesse. – disse a irmã mais nova, abraçando-a.

– Estou muito velha para deixar coisas pendentes. – riu a irmã mais velha, um pouco sem jeito para devolver o abraço, já que não era dada a demonstrações de carinho como aquela. Continuar lendo

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Diálogos (quase) possíveis – história 10

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Ela estava terminando um trabalho da faculdade no laptop, quando um ícone de novo e-mail piscou na tela. Às pressas, clicou no ícone, porque já estava atrasada para a aula. Mas tudo à sua volta parou quando ela leu a mensagem:

Por favor, venha me ver. Preciso da sua ajuda. Estou em casa. Pegue a chave com a Lia.

Ela jogou o computador no sofá, ligou para a professora e deu uma desculpa para faltar à aula daquele dia, pegou a bolsa e chamou um táxi. Passou na casa de Lia, que era quase do outro lado da cidade, pegou a chave. Atravessou a cidade de volta, com o mesmo motorista e, duas horas e meia depois, estava tentando enfiar a chave na porta do apartamento dele, coisa difícil para quem estava trêmula e nervosa. Continuar lendo

Diálogos (quase) possíveis – história 9

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Ela estava fechando o laptop às três da manhã, após um relatório extenso, que deveria
entregar para o seu chefe, no dia seguinte, quando recebeu uma mensagem nova, em um dos seus endereços eletrônicos. Pensou em deixar para ler no dia seguinte, mas decidiu abrir, antes de ir dormir.

Seu coração bateu mais forte ao ler o remetente. Imaginou que, talvez, pudesse ser alguma
brincadeira de mau gosto, mas quem se daria ao trabalho de brincar às três da manhã? O e-mail foi curto e direto:

Ane,

Desculpe a hora, mas estou insone. E sei que você também está. Desculpe sumir por tanto

tempo, mas acho que ainda posso consertar isso.

Amanhã, às quatro da tarde, no lugar de sempre. Pode ser?

Vou te esperar.

Levi.
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Diálogos (quase) possíveis – história 5

Sete e meia da noite. Faltavam trinta minutos para começar o treino. Ela ponderou uma tarde inteira se iria ou não naquele dia. Chegando à academia, trocou de roupa, colocou a bolsa no lugar de sempre e pegou um livro para ler, enquanto aguardava a aula começar. Foi em direção à escada que dava acesso ao segundo piso e sentou-se no sexto degrau. Torceu para que ninguém viesse falar com ela. Mas ele chegou para frustrar suas expectativas.

– Nunca conheci alguém que lesse tanto quanto você. – ele sorriu.

– Aham. – ela murmurou, sem tirar os olhos do livro. Continuar lendo

Diálogos (quase) possíveis – história 4

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Ele estava no quarto, com uma caixa de sapato forrada de tecido, no colo. A mãe, vendo seu filho tão quieto e com o olhar perdido, perguntou:

– O que você tem, meu filho? Estava com saudades do seu antigo quarto?

– Um pouco.

A mãe sentou-se na cama, ao seu lado. Ficou surpresa ao ver o conteúdo da caixa.

– Você ainda guarda essas coisas?

– Sim.

– Por que?

– Porque ela ainda me faz falta, mãe. Continuar lendo

Diálogos (quase) possíveis – história 3

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Ela havia esperado a ligação dele por quase um mês. Via que ele estava online nas redes sociais a maior parte do tempo, mas não falava. Não puxava assunto. Por serem muito parecidos, agiam igual. “Só falo quando falam comigo”, era o que os dois bradavam, em conversas aleatórias. Cansada de saber que dois bicudos não se beijam, ela deixou que a vida acontecesse.

E aconteceu, bem no dia 24 de dezembro, enquanto ela lavava a louça. Ouviu seu celular emitir um sinal sonoro de mensagem recebida. Era do aplicativo que ela olhava mil vezes por dia. Era ele, que ela esperava por uma vida. Continuar lendo

Diálogos (quase) possíveis – história 2

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[Julho de 2007]

Estava frio. Assim como na foto que ilustra o post, eu me encolhia, na tentativa de superar o frio do corpo e da alma. Por entre as mechas dos cabelos, vi alguém passar na esquina, sair do meu campo de visão e voltar. E quando essa pessoa me olhou de novo, se aproximou. E quando se aproximou, senti toda a minha dignidade ir embora.

– Nani, é você? – ela se agachou, tirando o cabelo do meu rosto.

– Infelizmente, sim. – respondi, sem olhar para ela.

– O que aconteceu com você? Por que está aqui?

– Você quer saber da parte boa ou da parte triste da história?

– As duas.

– A parte boa é que eu me separei. E a parte triste é que eu me separei.

Ela riu.

– Como se separar daquele filho da puta pode ser uma parte triste, Nani?

Levantei o rosto e abracei os joelhos.

– Se você olhar para mim vai encontrar sua resposta. Continuar lendo