Na janela da Rua Ismênia

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Na janela da casa onde nasci, pude ver muitas primaveras chegarem. Via a chuva bater e escorrer pela vidraça, me fazendo suspirar, mesmo quando eu não sabia o que aquilo significava. Esperei o Papai Noel tantas vezes no Natal, mas ele escolhia sempre o quintal para deixar meu presente.

Nessa janela, eu olhava a vida. Aquela que eu sentia por dentro e a que passava lá fora. As crianças brincavam sem medo e tempo. Só me restava olhar. Trepar na mureta e sorrir com o sorriso delas. Continuar lendo

Pessoas e jardins

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Toda a minha infância eu passei em Bento Ribeiro. Morávamos em uma casa de dois andares, com quintal e garagem revestida de azulejos antigos. Uma escada estreita dava acesso ao segundo pavimento e era onde eu brincava de ser a Xuxa (obviamente a nave era a casa de cima), o que não agradava muito o tio que sempre dormia no sofá e me via pelo vidro quebrado da porta de sua sala.

Mas o espaço que eu mais gostava era o jardim. Como o meu salvo-conduto me era dado apenas até o portão, era naquele espacinho de terra, em frente à janela, que eu me divertia. Lembro-me de cada detalhe e não me nego um sorriso saudoso. A comidinha era feita com terra, água e umas “frutinhas” vermelhas que nasciam em uma das plantas e que tinham um caroço preto e bem pequeno. Na primavera, as bolotinhas estouravam e viravam flores rosa-claro, arrancando inveja da nossa vizinha pela beleza.

Tinha umas pedras fincadas de tamanho considerável e dispostas de um jeito tão planejado que eu subia nelas, traçando um caminho suspenso e lutando com o equilíbrio, logo eu que nunca tive coordenação motora. Na parte da frente, um coqueiro erguia-se majestoso e exuberante, mas ele era tão perfeito que eu transitava entre os troncos e às vezes me encostava e ficava de bobeira ali dentro, vendo a vida passar.

Certa vez, revolvendo o solo para brincar, encontrei uma moeda antiga. Fiquei em êxtase com a novidade, acreditando que o jardim era mágico. Continuei remexendo, levantando pedras e encontrei mais algumas. Depois de encher uma das mãos com dinheiro velho, eu tive a certeza que aquele lugarzinho era meu portal, capaz de me transportar para um mundo novo.

Aos doze anos, minha avó materna morreu e por questões familiares e egoístas, eu tive de sair. Fui morar em outra casa, mas não havia um dia que eu não pensasse naquele jardim. O sofá de couro marrom e a estante de madeira com cheiro de velha combinavam com ele. Tudo se encaixava perfeitamente. Eu pegava o punhado de moedas todos os dias antes de dormir e chorava às escondidas no quarto novo, na casa nova. Nada ali era familiar e eu sentia falta do obsoleto.

Anos depois eu voltei a Bento Ribeiro. O muro estava diferente. Trocaram o portão. Estranhei por não ver a copa das plantas. Entrei e nesse momento meu coração parou no pé: não havia mais jardim, só um monte de terra revirada, pronta para sumir também. Um dos meus tios me disse que aquele espaço seria cimentado para servir como uma segunda garagem, já que outro morador teria carro. Eu ajoelhei, chorei e pedi para que ele não fizesse isso, porque aquele lugar era sagrado para mim. Contei sobre as brincadeiras e moedas encontradas ali. Ele riu e disse que elas eram uma coleção antiga do meu avô, que um dia ele encontrou sem querer e jogou no jardim por desleixo. Naquela hora eu entendi uma coisa: aquele encantamento todo era pela imagem que fiz e não pela realidade.

Com pessoas também acontece o mesmo. Mesmo que eu não seja muito adepta a fazer amizades com facilidade, tem vezes que meu espírito durão baixa a guarda e eu deixo uma brecha para pessoas se aproximarem. Elas sempre chegam com flores, corações, sorrisos e uma paz que me conquista logo de cara (sou taurina, portanto, boboca). Mas com o tempo de convivência, já imbuídas de uma intimidade que se esforça para aproximar dois mundos distintos, toda aquela parafernália de perfeição cai. As flores, murcham. Corações se trancam. Sorrisos esmaecem. E a paz, aquela com direito à pombinha branca e tudo, voa pra longe. O que era doce, amarga. A visão bonita que tínhamos, vira face horrenda que se revela por não ter saída.

Nada que é maquiado, forçado, plástico e esticado adere por muito tempo. A beleza (e digo de uma estética espiritual) só permanece se for pra valer, sem a intenção de parecer riponga e bem resolvida para os outros. Quem é da paz é e ponto. Não fica se importando com a vida dos outros, não dá pitaco, não diminui o outro e, principalmente, não DEBOCHA! Uma pessoa que é do bem quer dividi-lo em partes iguais e distribuir para que todos tenham a mesma sensação gostosa de viver pautado no que é direito e sensato, não para pagar de santo (aliás, ser santo deve ser chato pra cacete).

Pessoas são jardins: bonitos por fora, mas se não forem bons por dentro, não há semente que floresça.

Aryane Silva