In memorian

Na semana passada, enquanto tomava café da manhã, recebi uma notícia triste: o coordenador da minha faculdade havia morrido. Na hora, não consegui processar muito bem a notícia, porque era difícil acreditar naquilo. Na minha cabeça surgiam perguntas e porquês que eu não conseguia responder. Terminei de comer, mas aquela refeição não me caiu bem. Minha mente me transportava à última vez que nos vimos, no dia anterior. Continuar lendo

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Diálogos (quase) possíveis – história 14

Outubro de 2013:

Ela estava com o coração pesado, triste e, ao mesmo tempo, feliz, por trazer dentro de si um sentimento tão bonito. Mas sentia sozinha. Ou achava que sim. Como sempre fazia, pegou papel e caneta e decidiu desabafar. Escreveu, mais ou menos, trinta linhas. De rebeldia – e após uma crise de choro – publicou o tal texto desaforado.

No dia seguinte, recebeu um e-mail. Seu coração bateu de expectativa, mas o tal sorriso de ao ler o nome do remetente, desapareceu. A crônica acertou o alvo (ainda que esta não fosse a intenção da autora). A mensagem recebida acertou seu coração, e não foi de um jeito bom.

“Li seu texto. Estou confuso. O que está acontecendo com você? Acho que entendeu tudo errado.”

Dezesseis palavras. Ela leu, releu, julgou sua interpretação um tanto falha. Trocou as pontuações por outras, na tentativa de encontrar um erro semântico, que alterasse o teor daquele e-mail. Não tinha como. Era aquilo mesmo. Como dezesseis palavras têm o poder de acabar com o dia de uma pessoa? Não importava mais. O que sentia havia sido roubado, quebrado em mil pedacinhos. Respondeu com um pedido de desculpas, como se amar alguém fosse um grande erro.  Preferiu se afastar, se achou boba, chorou mais um pouco por ter entregue seu melhor para alguém que não deu importância. Continuar lendo

Como um sopro

Só para você saber: eu estou aqui e tenho lido coisas lindas. Não me refiro ao livro da minha cabeceira (esse assunto sempre rende), mas a palavras que procuro quando você não está.

Que medo! Que medo de meter o pé na porta errada ou chutar e não acertar. Ando nos arredores do seu coração, na ponta dos pés, segurando minhas imperfeições para não fazer barulho. Já pensou se passo e quebro alguma coisa? Eu já fiz isso, lembra? Não foi legal. Trago as cicatrizes emocionais até hoje. Continuar lendo

Café e distrações

Você pode até tentar me provocar ciúmes, dizer que ela é linda, enumerando características que ela possui e eu não. Eu te falarei dos meus livros, minhas lutas pessoais e um pouco de Almodóvar, que você só conhece pela paleta de cores dos filmes.

Tentando ir além, você a levará para a festa em que estaremos e eu terei de engolir em seco palavrões quilométricos. Na minha transparência facial, você conquistará um ponto de vantagem. Nem ligo. O que são caras e bocas, perto do que a gente tem um com o outro? Continuar lendo

O que você faz quando as luzes se apagam?

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Quando eu era pequena, ficava apavorada quando acabava a luz do bairro. Isso sempre acontecia em dias de muita chuva. Estávamos vendo televisão e, do nada, tudo ficava um breu. Eu corria para o quarto da minha avó. Ela, que vivia na escuridão total por ser deficiente visual, sabia tirar aqueles menos de letra (menos quando estava calor, é claro). Eu entrava esbaforida, praticamente arrancando a porta do quarto. Ela já sabia que era eu e dizia: “acabou a luz, né?”, deixando um espaço na cama para eu deitar, logo em seguida.

Antigamente, os serviços prestados pela fornecedora de energia não eram tão ágeis como agora. Chegávamos a ficar três dias sem luz. Quando isso acontecia, eu torcia para amanhecer logo e aproveitar a luz do sol, mesmo que não pudesse assistir minhas novelas preferidas. Continuar lendo

Deixa eu te conhecer de novo?

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Era 2007, quando terminamos por telefone. Ele, grudento demais. Eu, buscando um amor tranquilo, como Cazuza cantou. Encerramos um telefonema que não demorou dois minutos. Tudo muito breve, direto. Desliguei, peguei as chaves de casa, a bolsa e fui para a faculdade, como se nada tivesse acontecido. Era só um relacionamento que não deu certo, por ene fatores: distância, bagagens, horizontes e gostos (musicais, literários, gastronômicos). Ele comia feijão gelado. Parece desejo de grávida, eu dizia. E ríamos, até a barriga doer. Continuar lendo

Carta – resposta ao teu sentimentalismo

time_is_on_my_side_by_no_secrets“Saudade das nossas conversas…”

Li isso e quase não acreditei. Em qual planeta você vive? Não há semântica capaz de dar sentido a uma frase dessas. Nem Freud saberia explicar de onde você tirou isso. Agora, eu te pergunto? Que conversas? Que saudades?

A tua ideia de pronome possessivo está meio defasada. “Nossas” se refere a algo que pertence a duas pessoas ou mais. Mas, neste caso, não houve isso. Apenas uma comunicação mecânica, do tipo que mantemos com o porteiro do prédio ou o caixa do banco. Era um “oi, tudo bem?” , seguido por um “estou bem sim e você?”. A eloquência, neste caso, passou longe.

E que saudade é essa que você diz ter? Quer posar de apaixonado, romântico incurável ou arrependido? Porque, meu bem, você não se enquadra a nenhum desses adjetivos. Aliás, relendo o que acabo de escrever, acho que você precisa de umas boas aulas de gramática e interpretação de texto.

Que fique claro: não existe nossas, nem saudades, muito menos conversas. Nós somos dois pedaços humanos que, a duras penas, tentam (e precisam) seguir em frente. Tivemos diversas oportunidades: as conversas até a madrugada que não aconteceram, a falta do outro no final do dia, o sentimento dividido… Até isso, você não conseguiu entender. Eu estava totalmente disponível, querendo, sentindo até o último fio de cabelo, esperando o teu “sim” para eu me jogar. Mas você preferiu ter medo e recuar.

Nosso tempo acabou.

E não adianta vir com palavras bonitas.

Agora eu sei ler as entrelinhas.

Aryane Silva

IMAGEM: No Secrets (Deviantart)

 

Diálogos (quase) possíveis – história 2

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[Julho de 2007]

Estava frio. Assim como na foto que ilustra o post, eu me encolhia, na tentativa de superar o frio do corpo e da alma. Por entre as mechas dos cabelos, vi alguém passar na esquina, sair do meu campo de visão e voltar. E quando essa pessoa me olhou de novo, se aproximou. E quando se aproximou, senti toda a minha dignidade ir embora.

– Nani, é você? – ela se agachou, tirando o cabelo do meu rosto.

– Infelizmente, sim. – respondi, sem olhar para ela.

– O que aconteceu com você? Por que está aqui?

– Você quer saber da parte boa ou da parte triste da história?

– As duas.

– A parte boa é que eu me separei. E a parte triste é que eu me separei.

Ela riu.

– Como se separar daquele filho da puta pode ser uma parte triste, Nani?

Levantei o rosto e abracei os joelhos.

– Se você olhar para mim vai encontrar sua resposta. Continuar lendo

Tudo o que vai

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Aos dezessete anos ganhei uma máquina de escrever elétrica, como presente de aniversário. Fiquei toda boba, já que computador era uma raridade naquela época. Como eu estava em uma fase literária muito produtiva, usei o mimo à exaustão. E, para acomodá-la, havia uma escrivaninha e, de quebra, uma cadeira giratória e regulável. Me sentia a própria Clarice Lispector quando a usava. Nem o yorkshire que ganhei no ano seguinte me deixou tão feliz.

Anos depois – três anos, para ser mais exata – saí de casa para escrever a minha própria história, e não a levei comigo, porque os computadores se tornaram mais acessíveis. Em cada casa que morei usei um diferente e ainda assim senti falta de escrever e logo em seguida ver minhas palavras no papel, já que nem sempre havia uma impressora disponível e, quando havia, faltava tinta.

Liguei para minha antiga casa e perguntei à pessoa que me deu a máquina se eu podia passar lá qualquer dia desses para busca-la. A resposta veio com um golpe certeiro:

– Não está mais aqui. Eu vendi.

Como uma pessoa é capaz de vender um presente que ela mesma te deu e você não levou contigo por questões de logísticas, eu não sei. O fato é que minha máquina, meu xodó, estava em outro lugar, recontando outras histórias.

Aos vinte e três anos, me casei com um rapaz (meu atual marido) que, assim como eu, adora “relembrar os velhos tempos”. Conhecendo minha paixão pela escrita, desenterrou da casa da mãe uma máquina de escrever das antigas e me deu. Recebi com apreço, ainda mais sabendo a intenção e o carinho do gesto. Mas aquela ainda não era a máquina elétrica que eu tinha. Era menos suave e tinha um cheiro quase insuportável de óleo. Também não tinha a fita corretora que me ajudava um bocado, quando utilizava a outra. Mas, como sou adepta ao “vai tu mesmo”, a usei, sem reclamar. Nela, escrevi o rascunho de muitas crônicas que vocês leram aqui, anterior a essa.

Mas ainda não era a minha querida máquina.

Semana passada (isso quase um ano depois), minha sogra veio à minha casa, durante o café da manhã e comentou:

– Aryane, ontem eu ganhei um presente e lembrei de você: uma máquina de escrever elétrica! Nem sei o que vou fazer com ela. Para que vou querer aquilo?

Eu e meu marido nos entreolhamos.

– O que foi? – a mãe dele perguntou, curiosa.

– A Aryane tinha uma dessas, mãe, mas perdeu. Está querendo comprar outra.

Ela riu.

– Ué, para que comprar? Pode ficar com a minha.

E foi nela que escrevi esse texto, antes de digitar aqui (costume de escritor velho que não se adaptou às tecnologias).

Às vezes, quando perdemos algo, achamos que Deus é injusto com a gente ou não merecemos tal coisa. Mas a vida e sua perfeição, sempre nos devolve o que nos é tirado. Nesse texto, falo sobre algo material, passível de futura aquisição. E não escrevo sobre o objeto em si e sim o sentimento de perda.

Contei essa história para deixar uma mensagem para vocês. Tudo volta. O que é nosso, volta. Por mais que percamos um ente querido, ele sempre estará vivo e voltará nas lembranças de seus pratos preferidos ou músicas que mais gostava, relembrados por nós, que aqui ficamos. Se perdemos um emprego bacana, encontramos um melhor ainda, onde somos valorizados como profissionais. Se um amigo nos virou as costas, fazemos novas amizades. Se um amor não foi correspondido, outro virá para transbordar. Pode ser que não voltem como queríamos, mas voltam.

O leite derrama, a luz apaga, as portas se fecham, mas estamos aqui.

E enquanto estamos aqui, a vida continua.

Aryane Silva

O que a chuva me traz

Eu não pretendia escrever sobre você. Não hoje. Não agora. E em todas as vezes que pego o computador para escrever a crônica da semana ou meus pensamentos em um diário, preciso fazer um esforço hercúleo para evitar usar seu nome. Crio personagens idênticos, com ressalvas ridículas, como se pintasse a mesma imagem diversas vezes e me preocupasse em trocar as cores para não ficar parecido. E sempre fica, não para quem me lê por que, na maioria das vezes, o fazem por uma notificação no e-mail sobre a nova postagem (sempre às segundas-feiras, pela manhã) ou quando o Google me dá uma força e eu coloco tags mais específicas. Alguns me leem no metrô, pelo celular, outros, nos tablets, garimpando blogs literários.

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