Adeus silencioso

Só percebi que ele deixou de me amar quando eu me dei conta que passava muitas horas do meu dia olhando pela janela.

Eu não via ninguém passar.

Eu não esperava por alguém.

Na verdade, tudo o que via era uma vastidão imensa. Lá fora e por dentro.

Então me dei conta de que eu não sou ninguém tão importante assim para fazer alguém ficar.

E que nos dois, por mais certos que estejamos em nossas escolhas, somos indefinidos.

Precisamos de uma gramática que nos faça acontecer.

Aryane Silva

IMAGEM: Pinterest

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Eu odeio o dia catorze de junho

Você acreditaria se eu dissesse que minha mala já estava pronta, naquela época? E que eu fiquei a centímetros da porta, mas perdi a coragem de sair? Eu não tinha certeza de nada, mas tinha vontade de tudo. Eu sabia o que e como fazer. Levei meses planejando, calculando os riscos, prevendo as consequências. E eu arcaria com o que precisasse. Eu teria força por nós dois, o que hoje eu sei que é meu maior erro. Continue lendo “Eu odeio o dia catorze de junho”

Parágrafo único

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Fechei meus olhos e me vi sentada no galho de uma árvore enorme, olhando um pôr do sol muito bonito. O céu estava alaranjado, típico de um entardecer de outono. Foi uma sensação tão gostosa, tão singular… E sempre que me imagino neste lugar, você não está lá; essa é minha única tristeza. Então eu tento puxar pela memória nossas lembranças quase mortas pelo tempo, tentando contextualizar o mesmo sentimento que tenho toda vez que visito aquele lugar. Penso no quanto perdemos com o orgulho e a necessidade de provar algo para outras pessoas. Contabilizar essas coisas todas dá muito trabalho. Custa muita reflexão e uma boa dose de desapego, que eu não sei se dou conta. Devíamos ter ido a um lugar bonito. Devíamos ter um cenário bucólico para ir quando os dias futuros doessem (como hoje). Eu tenho um, mas repito: você não está nele. Então sou obrigada a descer da árvore, virar as costas e te buscar na realidade que nos sobrou. Se eu pudesse mudar algo, seria isto. E te olharia com aquele mesmo amor que deixou você ir. Hoje eu não sei amar direito e a culpa é sua. Acho que novos amores me tirarão o chão de um modo negativo. E eu não tenho asas. Você me conheceu quando eu as tinha e, naquela época, meus olhos era infinitos. Eu me pertencia e esperava o bom das coisas e pessoas. Não sei se voltarei a ser assim um dia. Minhas vontades não são tão famintas como antes. Só preciso de paz e um lugar-abrigo para esperar a tempestade passar. Mas ela não passa nunca. Você também não.

Aryane Silva

IMAGEM: DEviantart

Duas joaninhas

Há um mês que faço curso de astrologia. Minha professora, que é um amorzinho de gente, estranhou a minha seriedade. Na primeira aula, ela riu e disse que achava fofo o meu jeito focado (mal ela sabe que eu nunca serei fofa, talvez seja sua projeção pessoal). Estávamos via Skype, dei um sorriso amarelo e encerramos a aula.

Continue lendo “Duas joaninhas”

“Di” (para ler ao som de Vento no Litoral)

Que fique claro: não queria me apaixonar. Eu era daquelas jovens que acreditavam que o amor só aparece uma vez na vida e, meses antes, eu tinha terminado um relacionamento de quatro anos. Na época, eu tinha certeza que era amor. Comecei a duvidar quando terminamos em outubro de 2001.

Em janeiro de 2002, algo diferente aconteceu. E é delicioso lembrar, dezesseis anos depois.

– Você vai ao luau do condomínio? – minha vizinha me perguntou, quando eu estava entrando no prédio.

– Luau? Não estava sabendo. – respondi, educadamente, querendo não estender a conversa.

– Sim, estamos organizando um. Sempre fazemos eventos como esse. Você quer ir?

– Não sei. Vou ver. – respondi, abrindo a porta do apartamento e encerrando a conversa. Continue lendo ““Di” (para ler ao som de Vento no Litoral)”

Do outro lado do adeus

Só me lembro que foi em algum dia de abril, com chuvas torrenciais e medo de enchentes. Estava prestes a sair de casa para ir ao trabalho, quando abri o portão e dei um passo para trás, assustada. Meu guarda-chuva caiu da minha mão e rolou calçada abaixo por causa do vento forte. Engoli algumas gotas de chuva e a vontade de chorar. Você, absolutamente tranquilo, mas eu sabia ler seus olhos.

Disse que estava atrasada para o trabalho. Você deu aquele sorrisinho de canto de boca, como se não se importasse com isso. Eu queria sair correndo ou voltar para casa, mas estava no limite entre adiar ou enfrentar. E eu não sabia mais o que fazer. Você não era mais o Rafa que eu conhecia. Era apenas o Rafael, de sobrenome difícil de pronunciar.

“Posso entrar?”, você me perguntou à queima-roupa. “Já disse que estou atrasada”, respondi, sabendo que não iria a lugar nenhum. E você ficou ali, em pé, me olhando como se eu fosse um livro escrito em língua morta. Às vezes franzia a testa ou ria, não sei de ironia ou por outro motivo. Senti meu corpo inteiro tremer, de frio, saudade e medo. Aquele receio que toda a pessoa que fica do outro lado do adeus, sente.

“Um dia, Ane, você vai entender o que aconteceu aqui e agora. Vai lembrar de cada detalhe deste momento, cada palavra não dita e terá uma espécie de curiosidade. Espero, de coração, que você nunca passe pelo o que eu estou passando. Uma das coisas mais verdadeiras que você me ensinou foi ter a hora de chegar e perceber a hora de ir. Só precisava te ver, pela última vez, como se fosse a primeira”.

Você virou as costas e foi embora. Eu fiquei na chuva. E agora chove. Sua profecia se confirmou. Só estava errado em uma coisa: agora eu sei o que é estar do outro lado do adeus.

Aryane Silva

Imagem: Pinterest

Diálogos (quase) possíveis – história 15

“Sentirei sua falta.”

“Eu sei. “

– Bom dia, dorminhoca! Sabe que horas são? – perguntou o marido, dando-lhe um beijo na testa.

– Nem imagino. Mas hoje é feriado. Me dá um desconto, vai? – ela respondeu, sem olhar para ele.

– Você está bem? Dormiu mal?

Ela pensou na resposta certa, mas preferiu se calar e mudar de assunto.

– Você pagou a conta de luz, Fernando?

– Paguei, amor. Algum problema?

– Não, nada. Continue lendo “Diálogos (quase) possíveis – história 15”

In memorian

Na semana passada, enquanto tomava café da manhã, recebi uma notícia triste: o coordenador da minha faculdade havia morrido. Na hora, não consegui processar muito bem a notícia, porque era difícil acreditar naquilo. Na minha cabeça surgiam perguntas e porquês que eu não conseguia responder. Terminei de comer, mas aquela refeição não me caiu bem. Minha mente me transportava à última vez que nos vimos, no dia anterior. Continue lendo “In memorian”