Te (en)cantar

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Quero te cantar. Encantar também, se possível. Quero te compor, esmiuçar o que você tem por dentro e que eu ainda não conheço. Te reconhecer na primeira nota. Na segunda, encontrar seus olhos sorrindo para mim. Na terceira, te amar como uma música infinita, que não dependa de violão, acordes, harmonia: só nós dois. Você, que mora na minha mente desde o dia que te conheci. Eu, que me despedi não querendo, lamentando, experimentando a elasticidade do tempo. Que toda essa falta de história nos abrace e seja musicada à altura de tudo o que sentimos.

Quero te fazer música. Sorrir quando ela tocar em algum lugar alheio à nossa vontade. Me emocionar quando eu a dedilhar para te trazer perto, sem o medo de compromissos, horas ou relógios nos separarem. Que a melodia seja tudo o que eu não consegui dizer. Que a letra seja você rimada, parafraseada, urgente e descontraída.

Quero te ouvir. Deitar na cama, fechar os olhos e saber que você pode existir inúmeras vezes, no repeat, ecoando pela minha casa, entrando em mim, sem pedir permissão. Saber que te dei alguma coerência, consistência, significado. Que o homem desacreditado que fui dê lugar ao cara pateticamente apaixonado que sou, sem me envergonhar disso.

Quero te tocar. Primeiro, no violão. Depois, pessoalmente.

Aryane Silva

Fotografia: Aline Bravo

Sei

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Eu sei que ele olha minha foto e sorri. Que colocou Vercilo em sua playlist e toca “Ciclo” no repeat, só porque eu disse que, se um dia eu casasse, seria a trilha sonora da minha entrada na igreja. Que ri ao ver o meu bombom preferido na gôndola do supermercado e lembra do meu gritinho toda vez que ele me dava uma caixa com eles. Sei também que ele olha pela janela todas as madrugadas e me imagina insone, sabendo que eu não durmo antes das três da manhã. Continuar lendo

Mais fundo que o mar

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Minhas paixões sempre nascem de um xingamento. Sei que isso não é bonito, ainda mais vindo de uma escritora, mas é verdade. A primeira vez que ouvi Jorge Vercilo, estava dentro de um Passat verde, modelo antigo, com duas tias e três primos. Ao parar para abastecer, a motorista ligou o rádio do carro, que resolveu dar o ar da graça depois de tentar sintonizar na ida à praia. Uma das crianças aumentou o volume e começou a cantar junto: “êxtase, frenesi, é todo o meu viver, em órbita há dias por você…”. Continuar lendo

Quem nunca?

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Sim, eu já me apaixonei por um professor. Pensei que isso fosse coisa de adolescente descobrindo o amor, mas não. Acontece com pessoas de vinte e poucos também. Eu estava toda alegrinha, comemorando a recém-solteirice, badalando entre bares, boates e pagodes durante a madrugada, até que ele entrou na sala de aula, gesticulando daquele jeito que só os descendentes de italianos sabem fazer e eu me encantei. Quando ele nos contou suas tradições e os carinhos trocados entre os irmãos e pais, mesmo eles sendo do sexo masculino, eu suspirei, enquanto o resto da turma quase dormia.

Era do tipo que percebia quando você mudava a cor do esmalte ou cortava cinco centímetros do cabelo, e terminava a frase com um “tá linda”, despretensioso. Ele virava as costas e eu ria. A amiga, fiel escudeira, loirinha de olhos azuis, já olhava para mim sorrindo, pronta para soltar uma piada. Eu já previa o que ela diria e eu não estava mais em condições de negar. Se o fizesse, soaria falso. Então deixei que todos acreditassem que eu estava afim de um cara dez anos mais velho que eu. Eles estavam certos.

Uma vez, ele me parou no corredor para desabafar (eu não sei porque desperto esse tipo de confiança nas pessoas, é quase unânime). Ele falou de uma pessoa que ele gostava, mas que não dava a mínima para ele. Meu coração foi ao pé. A cada vez que ele me contava detalhes e quase chorava por ela, eu me afogava por dentro, num mar de coisas que eu jamais poderia dizer. O papel que me coube foi o de ser ouvinte e amiga. Nada além disso.

Nesse dia, voltei para casa triste pra caramba, ouvindo a música “Eu preciso dizer que te amo”, gravada por Pedro Mariano no repeat (detesto a versão da Marina Lima). Nenhuma música me definiu tão bem naquele dia, como aquela. Eu chorei uma dor de corno no caminho de volta, soluçando sem perceber, com a cabeça colada na janela do ônibus, até o trocador perceber minha fossa e dizer: – Se ele não te ama, outro vai te amar. Não fique assim.

Conselho certo. Meses depois eu estava com um novo amor.
E toda vez que ouço essa música, lembro dele. Sei que ele está casado e feliz, com filhinho e tudo e acho isso o máximo. Olho para ele e, de vez em quando, uma centelha de passado reacende, mas eu piso e faço questão de apagar.

Às vezes o amor existe só para um dos lados.

E o meu lado percebeu a tempo que certos infinitos são feitos para acabar dentro de uma gaveta.

Aryane Silva