Eu odeio o dia catorze de junho

Você acreditaria se eu dissesse que minha mala já estava pronta, naquela época? E que eu fiquei a centímetros da porta, mas perdi a coragem de sair? Eu não tinha certeza de nada, mas tinha vontade de tudo. Eu sabia o que e como fazer. Levei meses planejando, calculando os riscos, prevendo as consequências. E eu arcaria com o que precisasse. Eu teria força por nós dois, o que hoje eu sei que é meu maior erro. Continue lendo “Eu odeio o dia catorze de junho”

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Parágrafo único

i_ain__t_missing_you____by_guitargirl94

Fechei meus olhos e me vi sentada no galho de uma árvore enorme, olhando um pôr do sol muito bonito. O céu estava alaranjado, típico de um entardecer de outono. Foi uma sensação tão gostosa, tão singular… E sempre que me imagino neste lugar, você não está lá; essa é minha única tristeza. Então eu tento puxar pela memória nossas lembranças quase mortas pelo tempo, tentando contextualizar o mesmo sentimento que tenho toda vez que visito aquele lugar. Penso no quanto perdemos com o orgulho e a necessidade de provar algo para outras pessoas. Contabilizar essas coisas todas dá muito trabalho. Custa muita reflexão e uma boa dose de desapego, que eu não sei se dou conta. Devíamos ter ido a um lugar bonito. Devíamos ter um cenário bucólico para ir quando os dias futuros doessem (como hoje). Eu tenho um, mas repito: você não está nele. Então sou obrigada a descer da árvore, virar as costas e te buscar na realidade que nos sobrou. Se eu pudesse mudar algo, seria isto. E te olharia com aquele mesmo amor que deixou você ir. Hoje eu não sei amar direito e a culpa é sua. Acho que novos amores me tirarão o chão de um modo negativo. E eu não tenho asas. Você me conheceu quando eu as tinha e, naquela época, meus olhos era infinitos. Eu me pertencia e esperava o bom das coisas e pessoas. Não sei se voltarei a ser assim um dia. Minhas vontades não são tão famintas como antes. Só preciso de paz e um lugar-abrigo para esperar a tempestade passar. Mas ela não passa nunca. Você também não.

Aryane Silva

IMAGEM: DEviantart

Eu tenho que aprender a te deixar pra lá

Passei o dia inteiro ouvindo a mesma música, repetidas vezes. Não é um costume meu, bem sabes. Agora, antes de dormir, entendi o porquê: a música fala de nós dois.  Não te conheço o suficiente para saber se você acredita em destino e nas voltas que o mundo dá para atender aos caprichos de um Universo teimoso. Às vezes também desacredito. Às vezes olho para o céu e não vejo nenhuma estrela. Às vezes me pergunto por que ainda devo acreditar em tudo isso. Continue lendo “Eu tenho que aprender a te deixar pra lá”

Do outro lado do adeus

Só me lembro que foi em algum dia de abril, com chuvas torrenciais e medo de enchentes. Estava prestes a sair de casa para ir ao trabalho, quando abri o portão e dei um passo para trás, assustada. Meu guarda-chuva caiu da minha mão e rolou calçada abaixo por causa do vento forte. Engoli algumas gotas de chuva e a vontade de chorar. Você, absolutamente tranquilo, mas eu sabia ler seus olhos.

Disse que estava atrasada para o trabalho. Você deu aquele sorrisinho de canto de boca, como se não se importasse com isso. Eu queria sair correndo ou voltar para casa, mas estava no limite entre adiar ou enfrentar. E eu não sabia mais o que fazer. Você não era mais o Rafa que eu conhecia. Era apenas o Rafael, de sobrenome difícil de pronunciar.

“Posso entrar?”, você me perguntou à queima-roupa. “Já disse que estou atrasada”, respondi, sabendo que não iria a lugar nenhum. E você ficou ali, em pé, me olhando como se eu fosse um livro escrito em língua morta. Às vezes franzia a testa ou ria, não sei de ironia ou por outro motivo. Senti meu corpo inteiro tremer, de frio, saudade e medo. Aquele receio que toda a pessoa que fica do outro lado do adeus, sente.

“Um dia, Ane, você vai entender o que aconteceu aqui e agora. Vai lembrar de cada detalhe deste momento, cada palavra não dita e terá uma espécie de curiosidade. Espero, de coração, que você nunca passe pelo o que eu estou passando. Uma das coisas mais verdadeiras que você me ensinou foi ter a hora de chegar e perceber a hora de ir. Só precisava te ver, pela última vez, como se fosse a primeira”.

Você virou as costas e foi embora. Eu fiquei na chuva. E agora chove. Sua profecia se confirmou. Só estava errado em uma coisa: agora eu sei o que é estar do outro lado do adeus.

Aryane Silva

Imagem: Pinterest

O preço da corvadia

Eu me escondo, não nego.

Apareço quando puder.

Parafraseio o que me resta,

depois da tentativa de afirmar o óbvio.

Isso, tudo isso, eu terei de carregar sozinha.

As cartas rasgadas,

as dedicatórias arrancadas dos livros presenteados,

a saudade esmagadora.

Eu tenho muita novidade pra contar,

que eu queria que só você soubesse.

Mas já passa das duas,

você está em outra cidade,

eu não paro de escutar a nossa música,

tive um sonho estranho à tarde,

sinto um desconforto dentro de mim,

algo perdido no universo que sou,

um universo que guarda a tua lembrança,

faz figa e preserva seu lugar na cama,

mas que dorme na espera.

Sigo não sabendo,

apostando algumas fichas,

despistando a melancolia que me persegue,

aguentando como dá.

Fazendo prece, ,cruzando os dedos, chorando no banheiro,

fingindo que está tudo bem,

quando não está.

E essa coragem que me falta,

essa, que você também não tem,

nos mantém afastados em uma indiferença protetora,

e ressurge no livro que estou lendo,

e que eu já estou pensando em abandonar,

antes que eu volte atrás,

e tome impulso.

Eu não quero mais você na minha vida.

Mas confesso que é quase insuportável viver negando isso.

Aryane Silva

Para você lembrar de mim

Eu não vou deixar você me esquecer tão rápido. Ainda não sei como fazer isso, porque minha tendência é me afastar quando percebo que a sintonia não é mais a mesma. Mas vou arranjar um jeito, uma maneira de ficar para sempre contigo.

Eu acredito em lembranças bonitas, vividas ou não. Naquelas que moram em fotos e nas que o coração cria. O meu tem uma imaginação muito fértil. Está apegado a você como personagem. Continue lendo “Para você lembrar de mim”

Como um sopro

Só para você saber: eu estou aqui e tenho lido coisas lindas. Não me refiro ao livro da minha cabeceira (esse assunto sempre rende), mas a palavras que procuro quando você não está.

Que medo! Que medo de meter o pé na porta errada ou chutar e não acertar. Ando nos arredores do seu coração, na ponta dos pés, segurando minhas imperfeições para não fazer barulho. Já pensou se passo e quebro alguma coisa? Eu já fiz isso, lembra? Não foi legal. Trago as cicatrizes emocionais até hoje. Continue lendo “Como um sopro”