A esperança é um olhar de vó

A última vez que vi minha avó, faltava uma semana para o meu aniversário de doze anos. Durante o longo período em que ela esteve internada, eu a visitava todas as semanas, às quintas-feiras. Como não podia entrar no CTI, eu ficava na sala de espera ou em uma lanchonete, ao lado do hospital. Eu sabia que havia algo errado, mas não queria acreditar. Eu não tinha maturidade para entender que aqueles eram seus últimos dias. Continue lendo “A esperança é um olhar de vó”

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O preço da corvadia

Eu me escondo, não nego.

Apareço quando puder.

Parafraseio o que me resta,

depois da tentativa de afirmar o óbvio.

Isso, tudo isso, eu terei de carregar sozinha.

As cartas rasgadas,

as dedicatórias arrancadas dos livros presenteados,

a saudade esmagadora.

Eu tenho muita novidade pra contar,

que eu queria que só você soubesse.

Mas já passa das duas,

você está em outra cidade,

eu não paro de escutar a nossa música,

tive um sonho estranho à tarde,

sinto um desconforto dentro de mim,

algo perdido no universo que sou,

um universo que guarda a tua lembrança,

faz figa e preserva seu lugar na cama,

mas que dorme na espera.

Sigo não sabendo,

apostando algumas fichas,

despistando a melancolia que me persegue,

aguentando como dá.

Fazendo prece, ,cruzando os dedos, chorando no banheiro,

fingindo que está tudo bem,

quando não está.

E essa coragem que me falta,

essa, que você também não tem,

nos mantém afastados em uma indiferença protetora,

e ressurge no livro que estou lendo,

e que eu já estou pensando em abandonar,

antes que eu volte atrás,

e tome impulso.

Eu não quero mais você na minha vida.

Mas confesso que é quase insuportável viver negando isso.

Aryane Silva

Que me lê

Sou a favor de tentativas e insistências. Já desisti de coisas demais. E acredito que você, que me lê agora, também já tenha deixado muitas coisas para trás. Estamos muito longe, eu sei. E somos muito diferentes. Aqui chove e é domingo. Eu quis escrever. Desculpe, mas eu precisava escrever.

Em alguns momentos, enquanto escrevo, me acho muito egoísta. Falo de mim, dos meus sentimentos e sei que ninguém liga para isso. Mas não sei como falar de você, sem falar de mim. Tudo nasce aqui. Serei gentil a ponto de pular os clichês repetitivos de insônia e saudade. Das gavetas vazias e dos ombros cansados. Porque, no final de tudo, ninguém liga. Continue lendo “Que me lê”

61

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Quando eu era pequena, tinha medo de aranhas.

De quebrar coisas.

De trovões.

De comer cachorro-quente e passar mal (até hoje tenho esse medo).

Eu cresci e os medos continuam os mesmos,

acrescidos de outros mais compreensíveis:

ficar em dependência em Filosofia,

ter filhos naturais,

levar um tiro,

perder as chaves de casa,

ficar presa no elevador. Continue lendo “61”

A passos lentos

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Não é a topada do dedo mindinho do pé, na perna da mesa, que dói.

Nem o corte superficial na mão, quando descascamos os legumes da sopa.

Muito menos as bolhas causadas pelos sapatos novos.

Não são os pêlos arrancados à pinça, nem o torcicolo por dormir de mau jeito, nem o bife arrancado da unha pela manicure aos sábados.

Não, isso não dói.

Nem o tiro, nem o tapa, nem o tropeço de cara no chão. Continue lendo “A passos lentos”