Mixórdia

São quase cinco da manhã. Chove bastante aqui na minha cidade. E eu, apesar de saber tantas coisas, ainda não sei o que eu fiz para que você ficasse tão indiferente a mim. Ok, concordo que eu não sou uma pessoa tão acessível. Prezo pelo falar pouco ou quase não falar. Sou do pensar e quase não agir. Mas tudo isto tem uma razão de ser e so com você eu sou diferente. Contigo, eu quero conversar até o amanhecer. Quero rir de piadas bobas e fazer planos. Lembra da viagem de ônibus a outro país, que comentamos e que, depois de uma risada descrente minha, você disse que era sério? Lembra do convite para ver o céu estrelado e amanhecer contigo? Pois é, nada disso se concretizou. E eu me pergunto o porquê de não termos forças para dizer, quando haviam tantos sinais. Acima de tudo, nos propomos um jogo perigoso, elástico, do quase-beija, quase-diz-que-ama, quase-liga. Uma competição que não pretendíamos ganhar por covardia, por um desejo que ardia e que só viveu de fantasia. Continue lendo “Mixórdia”

Anúncios

Na janela da Rua Ismênia

autumnal_window_by_princessintheshit-d32x1x2

Na janela da casa onde nasci, pude ver muitas primaveras chegarem. Via a chuva bater e escorrer pela vidraça, me fazendo suspirar, mesmo quando eu não sabia o que aquilo significava. Esperei o Papai Noel tantas vezes no Natal, mas ele escolhia sempre o quintal para deixar meu presente.

Nessa janela, eu olhava a vida. Aquela que eu sentia por dentro e a que passava lá fora. As crianças brincavam sem medo e tempo. Só me restava olhar. Trepar na mureta e sorrir com o sorriso delas. Continue lendo “Na janela da Rua Ismênia”

Diálogos (quase) possíveis – história 10

hold_your_hands_in_mine_by_fayde2memory

Ela estava terminando um trabalho da faculdade no laptop, quando um ícone de novo e-mail piscou na tela. Às pressas, clicou no ícone, porque já estava atrasada para a aula. Mas tudo à sua volta parou quando ela leu a mensagem:

Por favor, venha me ver. Preciso da sua ajuda. Estou em casa. Pegue a chave com a Lia.

Ela jogou o computador no sofá, ligou para a professora e deu uma desculpa para faltar à aula daquele dia, pegou a bolsa e chamou um táxi. Passou na casa de Lia, que era quase do outro lado da cidade, pegou a chave. Atravessou a cidade de volta, com o mesmo motorista e, duas horas e meia depois, estava tentando enfiar a chave na porta do apartamento dele, coisa difícil para quem estava trêmula e nervosa. Continue lendo “Diálogos (quase) possíveis – história 10”

1975185_1406990346288959_373708468338695978_n

Ok, vou te respeitar.
Pode ir.
Se quiser, te ajudo a fazer as malas.
Compro sua passagem e te dou de presente.
Ou tênis novos para você caminhar por aí.
Tudo bem, nada de explicações. Você está no seu direito.
Para que se prender numa história mal contada, não é mesmo?
Por que você iria querer dias tão previsíveis?
Vai, eu abro a porta para você.
Tem estrada, céu, um punhado de estrelas e muita boniteza pelo mundo.
Não precisa se preocupar comigo.
Por que se preocuparia, não é?
Eu tô bem, sou forte pra caramba, destemida, segura e inteira.
Por que eu sofreria por um amor que está com os dois pés do lado de fora, pronto para morar no meu “era uma vez”?
Por que eu, tão bem resolvida, iria chorar? Desde quando ” não-amores” me deixam mal?
Acha que eu não vou amar outro?
Acha que eu não vou entregar o meu melhor para quem saiba receber?
Acha que eu não vou ocupar os espaços que você vai deixar, dentro e fora de mim?
Você pensa que eu vou te gritar da porta, me agarrar em suas pernas, tornar o tempo elástico?
Não mesmo.
Vai, pode ir.
Leve seus cds, livros, seu orgulho, sua teimosia, seus medos e todos os pensamentos não verbalizados.
Leve sua quinquilharia emocional e solidão.
Eu fico aqui, organizando a bagunça que você deixou.
E, de quebra, se me sobrar algum tempo, sentirei saudades por tempo determinado.
Até eu te odiar, te esquecer, te amar de novo, sentir sua falta, te superar, te esquecer de novo.
E lembrar que eu eu ainda estou aqui, daquele jeito que você conheceu.
Desta vez, numa versão mais leve.
E pronta para amar de novo.

Aryane Silva

Malandra

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Guarde esses palavrões quilométricos. Respire e inspire, cinquenta vezes. Abaixe suas armas, não vim para brigar. Estou em missão de paz. Quem, em sã consciência, atravessaria duas cidades inteiras (a minha e a sua), para falar só meia dúzia de palavras? Revire os olhos outra hora. Resmungue depois que eu for embora. Mas agora eu preciso que me escute.

Você deve estar me odiando por eu aparecer assim, naturalmente fresca, despojada no jeans lavado e no tênis surrado, como se nada tivesse acontecido. Como se a caneca arremessada na parede e a sua blusa quase rasgada naquele dia não tivesse acontecido, como se não tivesse importância. Na verdade, eu nem me lembro muito, sabe? Continue lendo “Malandra”

Um dia

forgive_yourself_by_black0widow-d3crfzx

Um dia, eu voltarei. Para você, para aquela cafeteria do bairro mais brega que eu conheço, pro guarda-chuva dividido, pra sua tela de computador. Serei Eurídice, Heloísa, Julieta e até mesmo Beatriz, ainda que me falte um pouco de amor para ser todas elas. Cantarei Tom, errando a letra, como um ritual sagrado durante a faxina de sábado. Ou colocarei as blusas por ordem de cor, dentro do seu armário de porta emperrada. Continue lendo “Um dia”