In memorian

Na semana passada, enquanto tomava café da manhã, recebi uma notícia triste: o coordenador da minha faculdade havia morrido. Na hora, não consegui processar muito bem a notícia, porque era difícil acreditar naquilo. Na minha cabeça surgiam perguntas e porquês que eu não conseguia responder. Terminei de comer, mas aquela refeição não me caiu bem. Minha mente me transportava à última vez que nos vimos, no dia anterior. Continuar lendo

Anúncios

Escute, Isabela

Há alguns minutos, ouvi um homem gritar o nome da vizinha nova. Eu lia, e só dei importância ao fato por isso. O rapaz estava me desconcentrando com seus berros. E friso p plural, porque ele não chamou apenas uma vez, mas várias. A moça, que mora à minha esquerda, não atendeu a porta. Eu estava na página 133 e, pela insistência do cara, não consegui sair da palavra “botas”, última do título do capítulo. primeiro, ele chamou. Uma, duas, cinco vezes no mesmo tom  e nada. Em seguida, elevou a voz por mais algumas tentativas, como se ela pudesse pular o muro da casa. Murmurei um caramba! será que você não percebe que ela não está em casa? E meus olhos ainda nas botas literárias de Machado de Assis. Continuar lendo

Café e distrações

Você pode até tentar me provocar ciúmes, dizer que ela é linda, enumerando características que ela possui e eu não. Eu te falarei dos meus livros, minhas lutas pessoais e um pouco de Almodóvar, que você só conhece pela paleta de cores dos filmes.

Tentando ir além, você a levará para a festa em que estaremos e eu terei de engolir em seco palavrões quilométricos. Na minha transparência facial, você conquistará um ponto de vantagem. Nem ligo. O que são caras e bocas, perto do que a gente tem um com o outro? Continuar lendo

Na janela da Rua Ismênia

autumnal_window_by_princessintheshit-d32x1x2

Na janela da casa onde nasci, pude ver muitas primaveras chegarem. Via a chuva bater e escorrer pela vidraça, me fazendo suspirar, mesmo quando eu não sabia o que aquilo significava. Esperei o Papai Noel tantas vezes no Natal, mas ele escolhia sempre o quintal para deixar meu presente.

Nessa janela, eu olhava a vida. Aquela que eu sentia por dentro e a que passava lá fora. As crianças brincavam sem medo e tempo. Só me restava olhar. Trepar na mureta e sorrir com o sorriso delas. Continuar lendo

Diálogos (quase) possíveis – história 10

hold_your_hands_in_mine_by_fayde2memory

Ela estava terminando um trabalho da faculdade no laptop, quando um ícone de novo e-mail piscou na tela. Às pressas, clicou no ícone, porque já estava atrasada para a aula. Mas tudo à sua volta parou quando ela leu a mensagem:

Por favor, venha me ver. Preciso da sua ajuda. Estou em casa. Pegue a chave com a Lia.

Ela jogou o computador no sofá, ligou para a professora e deu uma desculpa para faltar à aula daquele dia, pegou a bolsa e chamou um táxi. Passou na casa de Lia, que era quase do outro lado da cidade, pegou a chave. Atravessou a cidade de volta, com o mesmo motorista e, duas horas e meia depois, estava tentando enfiar a chave na porta do apartamento dele, coisa difícil para quem estava trêmula e nervosa. Continuar lendo

Carta – resposta ao teu sentimentalismo

time_is_on_my_side_by_no_secrets“Saudade das nossas conversas…”

Li isso e quase não acreditei. Em qual planeta você vive? Não há semântica capaz de dar sentido a uma frase dessas. Nem Freud saberia explicar de onde você tirou isso. Agora, eu te pergunto? Que conversas? Que saudades?

A tua ideia de pronome possessivo está meio defasada. “Nossas” se refere a algo que pertence a duas pessoas ou mais. Mas, neste caso, não houve isso. Apenas uma comunicação mecânica, do tipo que mantemos com o porteiro do prédio ou o caixa do banco. Era um “oi, tudo bem?” , seguido por um “estou bem sim e você?”. A eloquência, neste caso, passou longe.

E que saudade é essa que você diz ter? Quer posar de apaixonado, romântico incurável ou arrependido? Porque, meu bem, você não se enquadra a nenhum desses adjetivos. Aliás, relendo o que acabo de escrever, acho que você precisa de umas boas aulas de gramática e interpretação de texto.

Que fique claro: não existe nossas, nem saudades, muito menos conversas. Nós somos dois pedaços humanos que, a duras penas, tentam (e precisam) seguir em frente. Tivemos diversas oportunidades: as conversas até a madrugada que não aconteceram, a falta do outro no final do dia, o sentimento dividido… Até isso, você não conseguiu entender. Eu estava totalmente disponível, querendo, sentindo até o último fio de cabelo, esperando o teu “sim” para eu me jogar. Mas você preferiu ter medo e recuar.

Nosso tempo acabou.

E não adianta vir com palavras bonitas.

Agora eu sei ler as entrelinhas.

Aryane Silva

IMAGEM: No Secrets (Deviantart)

 

Diálogos (quase) possíveis – história 4

remember_by_theredrussian-d49e5l0

Ele estava no quarto, com uma caixa de sapato forrada de tecido, no colo. A mãe, vendo seu filho tão quieto e com o olhar perdido, perguntou:

– O que você tem, meu filho? Estava com saudades do seu antigo quarto?

– Um pouco.

A mãe sentou-se na cama, ao seu lado. Ficou surpresa ao ver o conteúdo da caixa.

– Você ainda guarda essas coisas?

– Sim.

– Por que?

– Porque ela ainda me faz falta, mãe. Continuar lendo

Diálogos (quase) possíveis – história 3

bc5fb5260f07e43ccda495ad4a419401

Ela havia esperado a ligação dele por quase um mês. Via que ele estava online nas redes sociais a maior parte do tempo, mas não falava. Não puxava assunto. Por serem muito parecidos, agiam igual. “Só falo quando falam comigo”, era o que os dois bradavam, em conversas aleatórias. Cansada de saber que dois bicudos não se beijam, ela deixou que a vida acontecesse.

E aconteceu, bem no dia 24 de dezembro, enquanto ela lavava a louça. Ouviu seu celular emitir um sinal sonoro de mensagem recebida. Era do aplicativo que ela olhava mil vezes por dia. Era ele, que ela esperava por uma vida. Continuar lendo