Tudo o que eu queria te dizer

Sei que muita gente que ler o texto da imagem, não vai concordar comigo. Mas, na verdade, eu coloquei esse trecho de livro para você ler e refletir, porque eu já estou esgotada de todo esse jogo sem regras, cansativo e infinito. Eu já te disse antes – ou melhor, escrevi – que eu estava pronta. Que eu queria, tanto ou mais que você. Não sei porque não deu certo, em que momentos calculamos e planejamos errado. Minha intuição me diz que “ter um amor no meio do caminho” é o seu pensamento convicto. Ok, eu até concordo em certo ponto. Mas ele não poderia me parar. Isso eu te garanto.

Não sei se faz mais sentido me justificar, explicar, decretar tudo o que você já está cansado de saber. No fim das contas, há uma solidão, um lamento agudo e aquela esperança de que tomamos a decisão certa.

Só espero que eu não tenha decidido por você também.

Aryane Silva

Trecho do livro “As coisas que você só vê quando você desacelera”, de Haemin Sunim

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Mixórdia

São quase cinco da manhã. Chove bastante aqui na minha cidade. E eu, apesar de saber tantas coisas, ainda não sei o que eu fiz para que você ficasse tão indiferente a mim. Ok, concordo que eu não sou uma pessoa tão acessível. Prezo pelo falar pouco ou quase não falar. Sou do pensar e quase não agir. Mas tudo isto tem uma razão de ser e so com você eu sou diferente. Contigo, eu quero conversar até o amanhecer. Quero rir de piadas bobas e fazer planos. Lembra da viagem de ônibus a outro país, que comentamos e que, depois de uma risada descrente minha, você disse que era sério? Lembra do convite para ver o céu estrelado e amanhecer contigo? Pois é, nada disso se concretizou. E eu me pergunto o porquê de não termos forças para dizer, quando haviam tantos sinais. Acima de tudo, nos propomos um jogo perigoso, elástico, do quase-beija, quase-diz-que-ama, quase-liga. Uma competição que não pretendíamos ganhar por covardia, por um desejo que ardia e que só viveu de fantasia. Continue lendo “Mixórdia”

Diálogos (quase) possíveis – história 15

“Sentirei sua falta.”

“Eu sei. “

– Bom dia, dorminhoca! Sabe que horas são? – perguntou o marido, dando-lhe um beijo na testa.

– Nem imagino. Mas hoje é feriado. Me dá um desconto, vai? – ela respondeu, sem olhar para ele.

– Você está bem? Dormiu mal?

Ela pensou na resposta certa, mas preferiu se calar e mudar de assunto.

– Você pagou a conta de luz, Fernando?

– Paguei, amor. Algum problema?

– Não, nada. Continue lendo “Diálogos (quase) possíveis – história 15”

In memorian

Na semana passada, enquanto tomava café da manhã, recebi uma notícia triste: o coordenador da minha faculdade havia morrido. Na hora, não consegui processar muito bem a notícia, porque era difícil acreditar naquilo. Na minha cabeça surgiam perguntas e porquês que eu não conseguia responder. Terminei de comer, mas aquela refeição não me caiu bem. Minha mente me transportava à última vez que nos vimos, no dia anterior. Continue lendo “In memorian”

Escute, Isabela

Há alguns minutos, ouvi um homem gritar o nome da vizinha nova. Eu lia, e só dei importância ao fato por isso. O rapaz estava me desconcentrando com seus berros. E friso p plural, porque ele não chamou apenas uma vez, mas várias. A moça, que mora à minha esquerda, não atendeu a porta. Eu estava na página 133 e, pela insistência do cara, não consegui sair da palavra “botas”, última do título do capítulo. primeiro, ele chamou. Uma, duas, cinco vezes no mesmo tom  e nada. Em seguida, elevou a voz por mais algumas tentativas, como se ela pudesse pular o muro da casa. Murmurei um caramba! será que você não percebe que ela não está em casa? E meus olhos ainda nas botas literárias de Machado de Assis. Continue lendo “Escute, Isabela”

Café e distrações

Você pode até tentar me provocar ciúmes, dizer que ela é linda, enumerando características que ela possui e eu não. Eu te falarei dos meus livros, minhas lutas pessoais e um pouco de Almodóvar, que você só conhece pela paleta de cores dos filmes.

Tentando ir além, você a levará para a festa em que estaremos e eu terei de engolir em seco palavrões quilométricos. Na minha transparência facial, você conquistará um ponto de vantagem. Nem ligo. O que são caras e bocas, perto do que a gente tem um com o outro? Continue lendo “Café e distrações”

Na janela da Rua Ismênia

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Na janela da casa onde nasci, pude ver muitas primaveras chegarem. Via a chuva bater e escorrer pela vidraça, me fazendo suspirar, mesmo quando eu não sabia o que aquilo significava. Esperei o Papai Noel tantas vezes no Natal, mas ele escolhia sempre o quintal para deixar meu presente.

Nessa janela, eu olhava a vida. Aquela que eu sentia por dentro e a que passava lá fora. As crianças brincavam sem medo e tempo. Só me restava olhar. Trepar na mureta e sorrir com o sorriso delas. Continue lendo “Na janela da Rua Ismênia”

Diálogos (quase) possíveis – história 10

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Ela estava terminando um trabalho da faculdade no laptop, quando um ícone de novo e-mail piscou na tela. Às pressas, clicou no ícone, porque já estava atrasada para a aula. Mas tudo à sua volta parou quando ela leu a mensagem:

Por favor, venha me ver. Preciso da sua ajuda. Estou em casa. Pegue a chave com a Lia.

Ela jogou o computador no sofá, ligou para a professora e deu uma desculpa para faltar à aula daquele dia, pegou a bolsa e chamou um táxi. Passou na casa de Lia, que era quase do outro lado da cidade, pegou a chave. Atravessou a cidade de volta, com o mesmo motorista e, duas horas e meia depois, estava tentando enfiar a chave na porta do apartamento dele, coisa difícil para quem estava trêmula e nervosa. Continue lendo “Diálogos (quase) possíveis – história 10”

Carta – resposta ao teu sentimentalismo

time_is_on_my_side_by_no_secrets“Saudade das nossas conversas…”

Li isso e quase não acreditei. Em qual planeta você vive? Não há semântica capaz de dar sentido a uma frase dessas. Nem Freud saberia explicar de onde você tirou isso. Agora, eu te pergunto? Que conversas? Que saudades?

A tua ideia de pronome possessivo está meio defasada. “Nossas” se refere a algo que pertence a duas pessoas ou mais. Mas, neste caso, não houve isso. Apenas uma comunicação mecânica, do tipo que mantemos com o porteiro do prédio ou o caixa do banco. Era um “oi, tudo bem?” , seguido por um “estou bem sim e você?”. A eloquência, neste caso, passou longe.

E que saudade é essa que você diz ter? Quer posar de apaixonado, romântico incurável ou arrependido? Porque, meu bem, você não se enquadra a nenhum desses adjetivos. Aliás, relendo o que acabo de escrever, acho que você precisa de umas boas aulas de gramática e interpretação de texto.

Que fique claro: não existe nossas, nem saudades, muito menos conversas. Nós somos dois pedaços humanos que, a duras penas, tentam (e precisam) seguir em frente. Tivemos diversas oportunidades: as conversas até a madrugada que não aconteceram, a falta do outro no final do dia, o sentimento dividido… Até isso, você não conseguiu entender. Eu estava totalmente disponível, querendo, sentindo até o último fio de cabelo, esperando o teu “sim” para eu me jogar. Mas você preferiu ter medo e recuar.

Nosso tempo acabou.

E não adianta vir com palavras bonitas.

Agora eu sei ler as entrelinhas.

Aryane Silva

IMAGEM: No Secrets (Deviantart)