Vidraça

Ao final do ano passado, minha irmã me disse, através do WhatsApp, que ela se mudaria para Salvador, no início do ano seguinte. Derramei um choro patético, dramático e ridículo e ela tentou me acalmar (como se eu fosse uma criancinha de oito anos que sofria ao ver seu animalzinho de estimação morrer), dizendo que aquilo era para o bem dela, que ela precisava e tudo o mais. E o pior: eu sequer tinha o direito de chorar. Não via minha irmã havia anos. Muitos deles. Continue lendo “Vidraça”

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A carta

Essa foto contém amor. Muito amor.

Era dezembro do ano passado, quando alguém me chamou no portão da minha casa. Pela voz infantil, já sabia que era um dos meus alunos. Era o Kauã, que já tinha aparecido antes, para me dar o presente de Natal. Mas ele voltou, desta vez com outro presente. Ele segurava uma sacola de papel pardo e tinha um sorriso estampado no rosto. Sorri junto, porque quando se trata dele, é inevitável não sorrir quando ele está por perto.

Primeiro, ele me contou que conseguiu vaga em uma das escolas mais disputadas do bairro e da prefeitura do Rio de Janeiro.  Fiquei muito feliz por ele, porque sei que só os melhores alunos são direcionados para lá. Naquele momento, eu ganhei o ano e senti que meu trabalho de dez meses não foi em vão. Continue lendo “A carta”

A sabedoria dos pássaros

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Entender, nem sempre, é necessário. Às vezes experimentar é fundamental. Alimentar os sentidos.

Não saber pode ser o melhor passo a ser dado na caminhada evolutiva.

Talvez, estejamos querendo saber demais, correndo mais do que as pernas podem suportar.

Todos nós somos crianças teimosas e birrentas quando a vida não nos deixa ver o que há do outro lado da porta existencial. Continue lendo “A sabedoria dos pássaros”

Tudo o que vai

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Aos dezessete anos ganhei uma máquina de escrever elétrica, como presente de aniversário. Fiquei toda boba, já que computador era uma raridade naquela época. Como eu estava em uma fase literária muito produtiva, usei o mimo à exaustão. E, para acomodá-la, havia uma escrivaninha e, de quebra, uma cadeira giratória e regulável. Me sentia a própria Clarice Lispector quando a usava. Nem o yorkshire que ganhei no ano seguinte me deixou tão feliz.

Anos depois – três anos, para ser mais exata – saí de casa para escrever a minha própria história, e não a levei comigo, porque os computadores se tornaram mais acessíveis. Em cada casa que morei usei um diferente e ainda assim senti falta de escrever e logo em seguida ver minhas palavras no papel, já que nem sempre havia uma impressora disponível e, quando havia, faltava tinta.

Liguei para minha antiga casa e perguntei à pessoa que me deu a máquina se eu podia passar lá qualquer dia desses para busca-la. A resposta veio com um golpe certeiro:

– Não está mais aqui. Eu vendi.

Como uma pessoa é capaz de vender um presente que ela mesma te deu e você não levou contigo por questões de logísticas, eu não sei. O fato é que minha máquina, meu xodó, estava em outro lugar, recontando outras histórias.

Aos vinte e três anos, me casei com um rapaz (meu atual marido) que, assim como eu, adora “relembrar os velhos tempos”. Conhecendo minha paixão pela escrita, desenterrou da casa da mãe uma máquina de escrever das antigas e me deu. Recebi com apreço, ainda mais sabendo a intenção e o carinho do gesto. Mas aquela ainda não era a máquina elétrica que eu tinha. Era menos suave e tinha um cheiro quase insuportável de óleo. Também não tinha a fita corretora que me ajudava um bocado, quando utilizava a outra. Mas, como sou adepta ao “vai tu mesmo”, a usei, sem reclamar. Nela, escrevi o rascunho de muitas crônicas que vocês leram aqui, anterior a essa.

Mas ainda não era a minha querida máquina.

Semana passada (isso quase um ano depois), minha sogra veio à minha casa, durante o café da manhã e comentou:

– Aryane, ontem eu ganhei um presente e lembrei de você: uma máquina de escrever elétrica! Nem sei o que vou fazer com ela. Para que vou querer aquilo?

Eu e meu marido nos entreolhamos.

– O que foi? – a mãe dele perguntou, curiosa.

– A Aryane tinha uma dessas, mãe, mas perdeu. Está querendo comprar outra.

Ela riu.

– Ué, para que comprar? Pode ficar com a minha.

E foi nela que escrevi esse texto, antes de digitar aqui (costume de escritor velho que não se adaptou às tecnologias).

Às vezes, quando perdemos algo, achamos que Deus é injusto com a gente ou não merecemos tal coisa. Mas a vida e sua perfeição, sempre nos devolve o que nos é tirado. Nesse texto, falo sobre algo material, passível de futura aquisição. E não escrevo sobre o objeto em si e sim o sentimento de perda.

Contei essa história para deixar uma mensagem para vocês. Tudo volta. O que é nosso, volta. Por mais que percamos um ente querido, ele sempre estará vivo e voltará nas lembranças de seus pratos preferidos ou músicas que mais gostava, relembrados por nós, que aqui ficamos. Se perdemos um emprego bacana, encontramos um melhor ainda, onde somos valorizados como profissionais. Se um amigo nos virou as costas, fazemos novas amizades. Se um amor não foi correspondido, outro virá para transbordar. Pode ser que não voltem como queríamos, mas voltam.

O leite derrama, a luz apaga, as portas se fecham, mas estamos aqui.

E enquanto estamos aqui, a vida continua.

Aryane Silva

Bolha

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Alguém aqui já teve vontade de entrar numa bolha e não sair de lá até que o mundo voltasse ao normal? Levanto a mão aqui, do outro lado da tela. Mas confesso que estou aprendendo (a passos de formiga) a caminhar por tantas situações que me desagradam. Para mim, é muito dolorido ver o quanto as pessoas estão egoístas umas com as outras. Ver que, por mais que cada pessoa tenha direito a um “infinito particular”, um mundinho só seu, outras não entendem isso e derrubam a porta para entrar, sem serem convidadas. Tem muita gente que não sabe respeitar o sentimento e a vontade do outro, para não fazer um terceiro sofrer. E assim, saem atropelando nãos, derrubando as benditas cercas brancas que todos nós devemos colocar para evitar desgastes desnecessários. Continue lendo “Bolha”