Quase leve

Fins de tarde sempre me dão algum tipo de tristeza, sendo ele de céu cinzento, azul ou com aqueles tons rosados que eu amo. E eu tenho sentido essa melancolia (isso: melancolia!) há um mês. Há exatos trinta dias, às cinco da tarde, abro a porta da sala, sento na varanda, acendo um incenso, boto a água do chá para esquentar e fico ali, inspirando e expirando, deixando algumas lembranças virem e irem.

Durante essas minhas reflexões diárias eu cheguei a uma conclusão: eu não sei lidar com pessoas difíceis. Não sei e não quero mais. Levei trinta e três anos para entender muitas coisas, as que permiti que fizessem comigo, o que fiz com os outros e o que eu não tenho inteligência emocional para lidar. Pessoas difíceis estão nessa minha lista.

Durante toda a vida, me foi ensinado que gente complicada, na maioria das vezes, tem um passado difícil ou não gosta de como vive. Fizeram-me acreditar que para ser bom você precisar aceitar tudo o que vier, de bom grado, porque é assim que deve ser. A vida inteira eu pensei que quando uma pessoa é grosseira, egoísta, manipuladora, indiferente, impaciente e arrogante é porque ela está em algum momento complicado ou, na menos pior das hipóteses, está em um dia ruim. Mas, recentemente eu descobri que tudo o que me disseram não é um padrão. Continue lendo “Quase leve”

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Vidraça

Ao final do ano passado, minha irmã me disse, através do WhatsApp, que ela se mudaria para Salvador, no início do ano seguinte. Derramei um choro patético, dramático e ridículo e ela tentou me acalmar (como se eu fosse uma criancinha de oito anos que sofria ao ver seu animalzinho de estimação morrer), dizendo que aquilo era para o bem dela, que ela precisava e tudo o mais. E o pior: eu sequer tinha o direito de chorar. Não via minha irmã havia anos. Muitos deles. Continue lendo “Vidraça”

Agradecer [a graça descer]

A vida é muito rara. Muito. Ontem eu estava reclamando de um dedo com alergia provocada por uso de um anel vagabundo e hoje acordo com uma notícia triste. E, por trás dessa notícia, há uma pessoa que eu quero muito bem. E isso me fez voltar, por algum significado que ela jurou que eu tenho em sua vida. Continue lendo “Agradecer [a graça descer]”

(Re)construção

Viver é uma queda inevitável, como andar em uma rua esburacada de salto agulha.

É listar uma série de tarefas para realizar no dia seguinte e procrastinar.

É apanhar e se curar sozinha, sem remédio ou sopro ou abraço.

Estar de pé é mais que uma necessidade. É uma afronta, um desafio no meio de gente caída. E você não pode estar lá. Não pode e não deve.

Viver é sorrir, porque explicar dá trabalho. E fazer o outro entender, mais ainda. Continue lendo “(Re)construção”

Duas joaninhas

Há um mês que faço curso de astrologia. Minha professora, que é um amorzinho de gente, estranhou a minha seriedade. Na primeira aula, ela riu e disse que achava fofo o meu jeito focado (mal ela sabe que eu nunca serei fofa, talvez seja sua projeção pessoal). Estávamos via Skype, dei um sorriso amarelo e encerramos a aula.

Continue lendo “Duas joaninhas”

O mundo é fraco para o amor dos fortes

Hoje à tarde fui ao centro comercial do meu bairro, resolver algumas pendências. Confesso que não estava com muita vontade, mas tenho andado adepta a não adiar o que pode ser resolvido na hora. A rua cheia de pessoas, as marchinhas de carnaval ecoando nas lojas e a animação daquele mar de gente me fez um bem danado. Senti a energia positiva e efervescente daqueles que contam os dias para cair na folia. Passei por uma rua de paralelepípedos, abarrotada de gente e fantasias expostas e, em uma das lojas, ouvi uma música latina tocando. Sorri.

Parei para tomar um sorvete e ri para um bebê no colo de uma mulher que andava à minha frente. Alguma coisa o fez rir também. Na mesma hora, passei a mão nos meus cabelos, que soltos sempre despertam sorrisos em pequenos  que sequer falam. A criança estava com o olhar tão fixo em mim, que a mãe se virou. Ela sorriu e seguiu seu caminho. Pensei ” o que eu tenho que todo mundo está sorrindo hoje?“. Vi que o dia começou bem e supus que terminaria melhor ainda.

Até a hora de voltar para casa. Continue lendo “O mundo é fraco para o amor dos fortes”

A arte de se resgatar

 

Hoje eu recebi uma notícia que não esperava. Na verdade, eu meio que já sabia, mas eu andei tão acelerada nos últimos dias – não física, mas mentalmente – que acabei esquecendo. Então fui tomada pela surpresa (ou quase). Diferente das vezes anteriores, desta vez eu precisava pensar sobre o motivo de tanto desconforto. Parei e me perguntei: “em que momento eu me perdi que não percebi isso?”. Continue lendo “A arte de se resgatar”

Sobre si

Ok, garota. Você já tem mais de trinta. Está longe de ser uma menininha indefesa. Aliás, nunca foi. Sempre foi observadora para ter certeza do próximo passo a ser dado. Nunca negligenciou um sentimento, por mais doentio que fosse. Guardou papéis de carta, de bala e alguns bilhetes. Escreveu cartas (muitas): rasgou a maioria delas por covardia. Virou escritora por valentia. Quis berrar para o mundo tudo o que guardou por anos, na memória e no coração. Continue lendo “Sobre si”

A sabedoria dos pássaros

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Entender, nem sempre, é necessário. Às vezes experimentar é fundamental. Alimentar os sentidos.

Não saber pode ser o melhor passo a ser dado na caminhada evolutiva.

Talvez, estejamos querendo saber demais, correndo mais do que as pernas podem suportar.

Todos nós somos crianças teimosas e birrentas quando a vida não nos deixa ver o que há do outro lado da porta existencial. Continue lendo “A sabedoria dos pássaros”